Música ao vivo e transformação urbana em Lisboa: entre resistência cultural e turistificação

Dimensão analítica: Cultura, Artes e Públicos

Título do artigo: Música ao vivo e transformação urbana em Lisboa: entre resistência cultural e turistificação

Autor/a: Chiara de Dominicis, Manuel Garcia-Ruiz, Marco Roque de Freitas

Filiação institucional: 1 Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa; 2 Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL); 3 Instituto de Etnomusicologia – Music and Dance Research Centre (INET-md)

E-mail: cdominicis@fcsh.unl.pt; manuel_ruiz@iscte-iul.pt; marcofreitas@fcsh.unl.pt

Palavras-chave: Gentrificação, Música ao vivo, Resistência cultural.

Nas redes sociais, nos folhetos turísticos e nas campanhas promocionais, Lisboa é vendida como um destino irresistível: cidade da luz e das sete colinas, com elétricos fotogénicos, azulejos, miradouros e noites de fado autêntico. Uma cidade onde tradição e modernidade supostamente convivem em harmonia. Mas, por trás desta imagem encantadora, opera-se a transformação de áreas urbanas em versões estilizadas, controladas e “limpas” para consumo turístico, criando uma fachada sedutora que oculta desigualdades e fragilidades [1]. A proliferação de cafés “instagramáveis” e o ruído constante dos tuk-tuks são apenas alguns dos sintomas de uma Lisboa que se vende bem, mas onde viver e criar se torna cada vez mais difícil.

Gentrificação e turistificação não são fenómenos recentes: diversos estudos [2] têm alertado para os efeitos da mercantilização neoliberal da cidade, na qual habitação, cultura e convivência se transformam em produtos de consumo. Estas dinâmicas intensificaram-se após a crise de 2008, com os incentivos ao investimento estrangeiro e a proliferação do alojamento local. Esses processos vão além da habitação e da transformação do espaço público, reconfigurando a apropriação do território e impondo novas condições à expressão cultural. Resulta assim a substituição gradual de práticas enraizadas por produtos moldados ao consumo turístico, convertendo espaços em cenários temáticos e mercantilizados para seduzir o visitante. A pandemia de COVID-19 agravou fragilidades: espaços fecharam, músicos perderam rendimentos e profissionais da noite enfrentaram precariedade, agravada por mudanças na regulamentação dos horários dos estabelecimentos noturnos [3].

Mais que mero entretenimento, a música ao vivo representa um conjunto de práticas sociais e sonoras enraizadas em comunidades. Manifesta-se em “cenas” formadas por artistas, públicos, espaços, infraestruturas e repertórios [4], moldadas por dinâmicas internas (afinidades estéticas, trajetórias coletivas) e por fatores externos (políticas públicas, acesso ao espaço urbano). Observa-se, portanto, o surgimento de novos espaços com programação regular, frequentados por públicos heterogéneos, sobretudo em bairros centrais, enquanto coletivos e projetos comunitários lutam para manter vivas práticas ligadas à pertença local. O ecossistema musical mostra-se complexo: turistas e locais frequentemente se sobrepõem, desfazendo dicotomias e revelando espaços culturais urbanos em constante renegociação [5]. Entre eles, há turistas que buscam espaços alternativos para encontrar “autenticidade” e estudantes Erasmus que procuram experiências “fora do circuito Erasmus”. Essa procura leva a lugares de diversidade cultural e “genuinidade” urbana, moldados às suas estéticas e práticas. Ao mercantilizar essa busca, intensificam-se dinâmicas de exclusão [6] e comodificação de práticas culturais.

Nesse cenário, emergem tensão entre práticas que promovem coesão social e iniciativas voltadas à rentabilização da cidade-espetáculo. O discurso oficial de valorização da “cultura tradicional” frequentemente marginaliza práticas musicais de comunidades migrantes, ativas, mas invisíveis nas políticas patrimoniais e turísticas. Essa diversidade manifesta-se tanto à noite quanto em festas diurnas. Nos Santos Populares, por exemplo, ao lado do pimba ouvem-se bossa nova, blocos de carnaval, cumbia entre outros. O arraial da Associação Renovar a Mouraria no Largo da Rosa, em Junho, reúne músicas que animam a cidade todo o ano. Outro exemplo é o entorno da Igreja de Santo Estêvão, em Alfama, onde, além das casas de fado turísticas, ocorrem sessões improvisadas e encontros informais que desafiam narrativas patrimonializadas, revelando pertenças e convivências plurais.

Como responder a este cenário?

Pela perspetiva da resiliência cultural [7], a música ao vivo surge como um espaço de negociação simbólica, onde as práticas musicais se afirmam como manifestos de uma glocalização imparável, fruto dos processos migratórios da nossa história recente.

Neste sentido, as audiências têm um papel central. Mais que meros consumidores, são comunidades socialmente situadas, cujas práticas moldam o significado das performances [8]. A escuta, a presença e a interação são formas de habitar a cidade, pois a música é prática relacional: ouvir, tocar, organizar, participar.

As iniciativas comunitárias (festivais locais, assembleias de bairro, projetos de autogestão) propõem formas alternativas de viver a noite urbana e desafiam as lógicas hegemónicas da turistificação [9]. Tais potencialidades de resiliência seriam mais significativas com políticas culturais integradas e colaboração efetiva para valorizar o trabalho criativo e comunitário, indo além da patrimonialização, que pode reforçar a comodificação cultural. Universidades e centros de investigação também têm um papel central: ao promover metodologias participativas, alianças com artistas locais e análises críticas das políticas urbanas, ampliam a escuta institucional e dão visibilidade às práticas culturais emergentes.

A música ao vivo não é apenas lazer: é um campo de disputa simbólica, política e social. Reconhecer o seu valor como espaço de expressão, convivência e resistência é essencial para imaginar uma cidade habitável.

Notas:

[1] Souther, J. (2007). The Disneyfication of New Orleans: The French Quarter as facade in a divided city, Journal of American History, 94(3), pp.804–811.

[2] Garcia-Ruiz, M., Teixeira Costa, G., & Nofre, J. (2024). Cuando se enfría la noche, Estudios Turísticos, 228. DOI: https://doi.org/10.61520/et.2282024.1244.

[3] Garcia-Ruiz, M., Sánchez-Fuarros, I., & Martins, J. C., Pires, C. V., & Nofre, J. (2021). Governing ‘the Night’ in Post-COVID-19 Lisbon: Challenges, Opportunities, and Uncertainties, In P. Filion; B. Doucet; R. van Melik (eds.), Policy and Planning, vol.4, Bristol: Bristol University Press, pp.47–58. DOI: https://doi.org/10.51952/9781529219067.ch005.

[4] Straw, W. (2014). The urban night, In M. Darroch; J. Marchessault (eds.), Cartographies of place: Navigating the urban, Montreal: McGill-Queen’s University Press, pp.185–200. DOI: https://doi.org/10.1515/9780773590380-012.

[5] Nofre, J., Martins, J. C., Garcia-Ruiz, M., & Teixeira Costa, G. (2023). Una aproximación geográfica a los impactos de la turistificación del ocio nocturno en el barrio de Cais do Sodré, Lisboa, Estudios Geográficos, 84(294). DOI: https://doi.org/10.3989/estgeogr.2023135.135.

[6] Zukin, S. (2008), Consuming authenticity: From outposts of difference to means of exclusion, Cultural Studies, 22(5), pp.724–748. DOI: https://doi.org/10.1080/09502380802245985.

[7] Dillane, A., & Langlois, T. (2021), Sonic mapping and critical citizenship: Reflections on Limerick soundscapes, In B. Diamond; S. E. Castelo-Branco (eds.), Transforming ethnomusicology. Volume II: Political, social and ecological issues, Oxford: Oxford University Press.

[8] Garcia-Ruiz, M. (2023), Festivales de Luz, entre cultura y turismo: Una etnografía en dos festivales de luz portugueses [Tese de Doutoramento], Instituto Universitário de Lisboa, Lisboa. http://hdl.handle.net/10071/32266.

[9] Nofre, J. & Garcia-Ruiz, M. (2024), The future of nighttime tourism: More than challenges, In J. Nofre; M. Garcia-Ruiz (eds.), Understanding nighttime tourism, Cheltenham: Edward Elgar, pp.156–159.

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