O animal laborans académico e o fim da universidade

Dimensão analítica: Educação e Ciência

Título do artigo: O animal laborans académico e o fim da universidade

Autor: João Aldeia

Filiação institucional: Centro de Ecologia Funcional, Universidade de Coimbra

E-mail: alvesaldeia@gmail.com

Palavras-chave: neoliberalismo, precariedade, universidade.

A academia nunca foi perfeita. Do extractivismo intelectual a formas variadas de assédio, passando pela mediocridade dos carreiristas para a qual já Weber nos alertara [1], os problemas eram muitos e graves. Contudo, a par disto, pelo menos nos estudos sociais, a academia tinha espaços nos quais era possível a emergência de pensamento sério e crítico. Para além deste pensamento ser importante para o mundo, a sua prossecução convivial permitia a fruição da actividade intelectual pelos académicos e juntava-os numa comunidade epistémica apesar das suas divergências.

A neoliberalização da academia está em vias de matar esta comunidade. Preocupada com métricas, com imperativos contabilísticos e gestionários, com a produção de ciência aplicada capaz de aumentar lucros de empresas independentemente da sua relevância social, com o aumento contínuo da extracção da mais-valia gerada pelos próprios académicos, com a implementação eternamente repetida de novos procedimentos burocráticos destinados a tudo registar, a academia tornou-se tóxica [2]. Uma academia que, propositadamente, assenta numa massa de intelectuais precários não pode ser outra coisa que não tóxica. Isto leva a uma transformação fundamental da actividade académica, que deixa, progressivamente, de assentar na reflexão séria e crítica para se tornar num trabalho de merda. Como Graber explica, “um trabalho de merda é uma forma de emprego remunerado que é tão completamente inútil, desnecessária ou prejudicial que nem o empregado consegue justificar a sua existência, ainda que, como parte das condições do emprego, se sinta obrigado a fingir que não é o caso” [3]. A neoliberalização da academia resultou na sua merdificação, tornando-a, no melhor cenário, irrelevante para o mundo e, no pior, activamente prejudicial. Este estado das coisas verifica-se um pouco por todo o mundo, incluindo na academia portuguesa, na qual esta merdificação tem vindo a intensificar-se.

O fim da academia não seria possível sem o fim dos académicos. Ao longo de séculos, a pesquisa foi, nos termos de Wright Mills, um trabalho de artesanato intelectual [4], mas a temporalidade lenta desta actividade perdeu toda a sua respeitabilidade na academia neoliberal. Em alternativa, a academia neoliberal força o labor pseudo-intelectual sobre sujeitos precarizados transformados num tipo de animal laborans académico. Lembremo-nos que, para Arendt, o trabalho do homo faber visa a construção de um mundo durável de coisas, tendo um significado que ultrapassa o artesão que o desempenha, enquanto que, pelo contrário, o labor do animal laborans se esgota na efemeridade da reprodução biológica [5].

A temporalidade permanentemente acelerada da academia neoliberal coloca o animal laborans académico numa busca permanente pelo próximo indicador, pelo próximo artigo, pela subida do factor h, pelo próximo financiamento, pela próxima avaliação de desempenho. O animal laborans académico nunca descansa, nunca pára. Ele está, constantemente, a correr atrás de uma meta que se move à sua frente, sendo impossível alcançá-la. Ele move-se no imediato, sem tempo para pensar e sem poder almejar a qualquer impacto no mundo para além do que é metricamente reconhecido por administradores universitários, muitos deles, formalmente, ainda académicos.

Neste contexto, o animal laborans académico dificilmente pode ser um autor. Entendida como um acto pessoal de criação de conhecimento relevante (ainda que emergente da discussão convivial), a autoria assenta na lentidão de uma reflexão séria para a qual ele não tem tempo. Sendo-lhe negadas as condições necessárias para ser um criador (como era o homo faber académico), o animal laborans académico é, continuamente, dirigido para a simulação de conhecimento – mais e mais artigos, mais e mais financiamentos, na sua esmagadora maioria irrelevantes para o mundo ou, em alguns casos, somente relevantes para o enriquecimento das empresas que beneficiam deste labor. O animal laborans académico é capaz de citar, mas não tem condições para pensar – nem sequer tem, em muitos casos, tempo para ler.

Não criando nada de durável, aquilo que o animal laborans académico faz só pode ter como destino ser apropriado por outrem. O animal laborans académico não é um membro de uma comunidade epistémica; é somente um recurso para ser explorado e dominado. Desde logo, o animal laborans académico é explorado pelas universidades que apropriam o seu labor para desempenhar uma miríade de tarefas sem as quais deixariam de existir. Mas ele é também explorado por grupos editoriais multinacionais cuja existência parasitária exige o seu labor gratuito, que este aceita, em muitos casos, de forma inteiramente acrítica como um meio necessário para cumprir com mais uma exigência métrica, assim contribuindo para que estas sejam algumas das empresas com maiores margens de lucro no planeta [6][7]. Cada novo parecer, artigo ou revisão editorial são tornados em meros instantes numa sequência sem fim em busca dos indicadores necessários para agradar às administrações universitárias. Ao longo deste percurso, o animal laborans académico pode mesmo ser explorado e dominado por outros académicos que, menos precários, sobrevivem à custa do trabalho alheio, recheando o seu currículo com uma eficaz instrumentalidade carreirista.

Tudo isto traduz-se num enorme desperdício das capacidades de quem é transformado dia após dia em animal laborans por administrações universitárias que, apesar do marketing, estão pouco interessadas no bem-estar do mundo ou dos académicos que empregam. Traduz-se também no desperdício igualmente dramático de gente capaz que, em diferentes fases do percurso, é vomitada para fora da academia neoliberal.

Mas, porventura, o principal problema deste estado das coisas é que, demitindo-se do pensamento sério e crítico, a academia do animal laborans é incapaz de cumprir a sua responsabilidade para com o mundo em que existe. Neoliberal ou de outro tipo, a academia não existe num vácuo. Hoje, existe no meio da ascensão do fascismo tecnologicamente suportado e de um mar de problemas ecológicos causados pela modernidade capitalista. Consumido pela publicação de artigos conceptual e praxiologicamente irrelevantes, submerso na miríade de actividades que tem de realizar para preencher o seu currículo, pagar as suas contas ou satisfazer o seu pequeno ego, o animal laborans académico não consegue – e, em muitos casos, não pretende – combater o mal do mundo. Para que serve uma academia que não desempenha esta tarefa?

Notas

[1] Weber, M. (2005 [1917]). “A ciência como vocação”, in idem, Três tipos de poder e outros escritos. Tribuna da história.

[2] Smyth, J. (2017). The toxic university. Zombie leadership, academic rock stars, and neoliberal ideology. Palgrave Macmillan.

[3] Graeber, D. (2022 [2018]). Trabalhos de merda. Uma teoria. Edições 70.

[4] Mills, C.s W. (2000 [1959]). The sociological imagination. Oxford University Press.

[5] Arendt, H. (2001 [1958]). A condição humana. Relógio D’Água.

[6] Batterbury, Simon (2017). Socially just publishing. Implications for geographers and their journals, Fennia, 195(2).

[7] Buranyi, S. (2017). Is the staggeringly profitable business of scientific publishing bad for science?, The Guardian, 27 Junho 2017. https://www.theguardian.com/science/2017/jun/27/profitable-business-scientific-publishing-bad-for-science

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