A derrota dos porcos

Dimensão analítica: Ambiente, Espaço e Território

Título do artigo: A derrota dos porcos

Autor: José Gomes Ferreira

Filiação institucional: Membro do Observa – Observatório de Ambiente, Território e Sociedade / pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Estudos Urbanos e Regionais na Universidade Federal de Rio Grande do Norte (UFRN)

E-mail: jose.ferreira@outlook.com

Palavras-chave: produção suinícola, ambiente, competitividade, consumo de carne.

Tecnologia, escala e respeito pelas políticas ambientais e de bem-estar animal lideram as palavras-chave para a competitividade do sector suinícola nacional. O debate enquadra-se num outro de maior dimensão, sobre o qual Jackson-Smith e Buttel[1] trabalharam, reflectindo sobre as mudanças ocorridas na passagem de um sistema de base familiar para um modelo capitalista-industrial, propondo uma leitura a três níveis. No primeiro nível, a industrialização é usada como sinónimo de escala, podendo o tamanho das explorações ser considerada uma evidência adequada da transformação estrutural. No segundo nível, a industrialização envolve o aumento da separação entre a posse da propriedade, a gestão e o modo de funcionamento. O terceiro nível é encarado na perspectiva do uso que as explorações fazem da tecnologia, da organização do processo produtivo e do capital intensivo, sendo a industrialização frequentemente definida em termos de grande especialização da produção.

O tamanho não justifica per si a (in)sustentabilidade das explorações. As explorações familiares são caracterizadas por um grande número de proprietários, ao mesmo tempo produtores, relativamente independentes, mas sem possuírem nenhum controle de qualquer percentagem significativa do mercado. Pelo contrário, as explorações industriais têm menor número de intervenientes, mas exercendo uma influência significativa sobre a oferta, qualidade e preço. A produção de tipo industrial é ainda facilitada por inovações tecnológicas e institucionais que minimizam os riscos associados aos sistemas biológicos e à volatilidade do mercado.

O recurso à tecnologia teve grandes implicações na transformação das explorações. A especialização, a intensificação e concentração da produção devem muito ao ímpeto tecnológico, mas a tecnologia não explica tudo. É verdade que a tecnologia permitiu a muitos produtores o aumento da produção, todavia, pelos elevados custos que envolve, a tecnologia desencoraja o investimento. Sem esquecer que as políticas de ambiente e o activismo local e regional desencorajam igualmente a produção industrial [1;2].

O debate nacional sobre a questão da escala não tem sido apontado ao que interessa, pois reduz-se à discussão sobre a dimensão. Os produtores portugueses não devem querer competir com a produção em larga escala para o mercado internacional de países como a Espanha, que em 2014 ocupou o terceiro lugar no ranking mundial dos países exportadores com 10,7% do total[3]. Espanha compete pela liderança mundial, os produtores nacionais não estão nessa corrida. A produção portuguesa deve basear-se na diferenciação e na reorganização sectorial, redefinindo objectivos e prioridades. A diferenciação só se alcança valorizando as variedades nacionais e o que possam possuir em termos de identidade, aproveitando simultaneamente a diferenciação que o respeito pelas políticas ambientais possa trazer de inovador e atractivo.

Existem bons exemplos em Portugal que deveriam ser motivo de reflexão e reprodução pela suinicultura. Um dos vários exemplos é dado pelo sucesso actual da viticultura portuguesa, muito valorizada nos mercados internacionais, apesar de muitas explorações não possuírem a referida escala. Neste sector o debate sobre a escala surgiu com a adesão à União Europeia e com a necessidade de competitividade nos mercados internacionais. Ao contrário do que era a posição dominante, igualmente com argumentos que encaravam a escala como dimensão, vários especialistas, entre eles Michael Porter e o jornalista Paul J. White, foram importantes no convencimento dos produtores e autoridades nacionais, ao mostrarem que a dimensão não equivale necessariamente a competitividade e que a diferenciação acontece na pequena escala. Produzir o que temos de melhor, com rigor e alta qualidade tem feito a diferença, razão pela qual o rendilhado de pequenas quintas, sobretudo no Norte e Centro do país, passou a ser um elemento distintivo do vinho português, e para o qual contribuiu o investimento feito em tecnologia e recursos humanos[4].

Outro exemplo vem de dentro do sector e tem um enorme potencial de se reinventar e popularizar, entrando aqui a temática da rotulagem e produção com denominação de origem em diferentes escalas, assim como a realização de feiras do porco e do fumeiro e festivais gastronómicos ligados ao consumo de leitão. Nem toda a produção se pode reconverter com estes objectivos, nem a questão é essa, o que importa é fomentar um impulso criativo que permita fazer a diferença e atrair o consumidor.

Atribuir, mais uma vez, apoios financeiros não acrescenta nada, apenas alimenta um animal que já passou a fase de engorda e deveria ser abatido. Os apoios financeiros são necessários sim, caso se tenha degradado a condição social e económica dos suinicultores e respectivas famílias, mas fora dessa justa reivindicação, não representam uma solução, são um mero sorvedouro de dinheiro. Relembre-se que nas últimas décadas o sector contou com apoios comunitários para a sua reconversão e pouco ou nada fez, tal como se demonstrou no caso da bacia do Lis, tentou protelar a necessária reforma para daí retirar proveitos económicos no curto prazo[2].

É necessária outra atitude e maior envolvimento de todos neste processo, designadamente dos produtores e seus representantes, mas também do poder político, que até aqui tem sido conivente com o impasse e tem sido incapaz de propor e aplicar soluções. Exigir que as grandes superfícies comprem carne nacional também não resolve o problema, é um paliativo que adia a ruptura inevitável. Com iguais garantias de qualidade e sem elementos diferenciadores, as grandes superfícies e os consumidores vão fazer as suas escolhas com base no preço[2], o que penaliza a produção nacional.

Notas

[1] Jackson-Smith, D. & Frederick H. B. (1998), Explaining the uneven penetration of industrialization in the U. S. dairy sector, Internacional Journal of Sociology of Agriculture and Food, vol. 7, pp. 113-150.

[2] Ferreira, J. G. (2014), Saneamento básico: Factores sociais no insucesso de uma política adiada – O caso do Lis, tese de Doutoramento, Lisboa: Instituto de Ciências Sociais Universidade de Lisboa.

[3] Workman, D. (2016), Pork Exports by Country, World’s Top Exports. Disponível em URL [Consult. 11 Março de 2016] <http://www.worldstopexports.com/pork-exports-by-country/>

[4] Ferreira, J. G. (2009). O projecto ‘Património do Vinho e da vinha da Região Demarcada do Dão’. Apresentação de Resultados Preliminares. 1.º Congresso Internacional dos Vinhos do Dão – Inovação e Desenvolvimento, 3, 4, 5 e 6 de Junho, Viseu: CVRDão.

[5] Truninger, M. & Ferreira, J. G. (2014), Consumo, alimentação e OGM. in Schmidt, L. & Delicado, A. (Eds.) – Ambiente, Alterações Climáticas Alimentação e Energia. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, pp. 199-245.

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