O papel da crítica

Dimensão analítica: Economia e Política

Título do artigo: O papel da crítica

Autor: Gonçalo Marcelo

Filiação institucional: Faculdade de Economia e Gestão (Universidade Católica Portuguesa, Porto)

E-mail: goncalomarcelo@gmail.com

Palavras-chave: ciências sociais, crise, crítica.

O debate sobre o estatuto da teoria social e política é provavelmente quase tão antigo quanto a própria autonomização e afirmação institucional das ciências sociais e humanas. No decurso do século XX e nas primeiras décadas do século XXI esse debate teve como um dos seus pontos de maior interesse o papel da crítica: quão “crítico” deveria ser o cientista social sem deixar de ser “cientista”? Isto é, como é que se poderia conjugar o envolvimento do teórico social no seu objeto de estudo com as propaladas exigências de neutralidade axiológica que são parte integrante do ideal geralmente associado à ciência?

O problema teve, é claro, diferentes respostas. Se há quem defenda que qualquer violação da suposta neutralidade axiológica invalida automaticamente qualquer esforço científico, a maior parte dos teóricos relevantes nas ciências sociais e humanas – da Teoria Crítica (Horkheimer, Adorno, Habermas, Honneth, Fraser) à Sociologia Crítica de Bourdieu, incluindo a “sociologia da crítica” de Boltanski e Thévenot – enfatiza, de formas diferentes, a importância do exercício da crítica. Horkheimer, no texto fundador da Teoria Crítica [4], defende que é necessário que o cientista social não se contente em descrever a realidade social; nesta descrição, a Teoria Crítica deve, através dos seus próprios esforços teóricos, tentar contribuir para a transformar a própria realidade social, em nome dos valores que defende. Bourdieu [6], é claro, adotando parcialmente aquilo a que Ricœur chamava uma “hermenêutica da suspeita” [5] tenta definir a sociologia como uma “ciência crítica” capaz de desmistificar e desvelar aquilo que de censurado e recalcado existe no mundo social; Boltanski e Thévenot apresentam uma abordagem menos entusiasta do papel do teórico, realçando sobretudo a capacidade crítica já existente nos próprios atores sociais [3], enquanto Boltanski e Chiapello lamentavam em 1999 [1], no contexto da análise que faziam da evolução do capitalismo e das formas mutáveis do seu “espírito”, sempre capaz de absorver as críticas que lhe são dirigidas, um silenciamento quase total da crítica.

Um elemento comum a todas estas abordagens é, por conseguinte, a constatação de que a crítica – utilizada quer pela teoria propriamente dita, quer pelos diversos movimentos e atores sociais – é um elemento fundamental de mobilização e, até certo ponto, um antídoto para a anomia. De diferentes formas, a crítica “imanente”, “normativa”, “desconstrutiva”, “genealógica” ou “reconstrutiva” pressupõe portanto a dupla dimensão de diagnóstico de patologias sociais e, implícita ou explicitamente, o impulso para as ultrapassar; algo que se perde, sobretudo, quando a função crítica cai em desuso ou é silenciada.

No entanto, se é que se pode dizer que a crise económica e financeira de 2007-2008 teve algo de positivo, o elemento a identificar pode precisamente ser o renascimento generalizado da crítica, quer por parte dos movimentos sociais, quer no seio das próprias ciências sociais. Por exemplo, Boltanski reconhece hoje que esse renascimento é significativo, como resultado das consequências nefastas da crise [2]. Em Portugal, a crise colocou a nu os efeitos perniciosos do desmantelamento do Estado social ou da crescente precarização dos vínculos de trabalho, e teve obviamente como consequência um significativo aumento quer do desemprego, quer de um dos seus corolários evidentes: a desigualdade.

Boltanski propõe que as reflexões críticas assumam, hoje, o seu papel no seio destas transformações, estudando os novos mecanismos de poder e de dominação que delas resultarão e também, como é evidente, a degradação das condições de vida de uma parte significativa da população [2]. Na realidade, vivemos hoje uma crise com múltiplas dimensões. Por um lado, enfrentamos problemas de dimensão transnacional (colocados, por exemplo, pela globalização e pela dinâmica quase incontrolável dos fluxos financeiros internacionais). Por outro lado, a solução destes problemas parece ser impossível de encontrar a nível nacional (crise do paradigma vestefaliano do Estado) e muito difícil de coordenar mesmo a nível supranacional. Para chegarmos a essa conclusão, basta recordarmos as imensas dificuldades atuais de integração e coordenação de políticas económicas e financeiras no seio da União Europeia.

De resto, no que diz respeito à U.E. e a Portugal, às dificuldades de coordenação política, económica e financeira junta-se a difícil separação entre a esfera política e económica, na medida em que, sobretudo em tempo de crise, as decisões políticas são fortemente influenciadas por poderes financeiros não eleitos democraticamente, numa clara violação do princípio de separação dos dois domínios, tal como é defendido por Walzer [7]. Ainda pior, por vezes, quando de facto alguma decisão é tomada, ela pode tender a impor-se de forma vertical, sem qualquer escrutínio democrático direto, e sem ter em conta as aspirações da população – pense-se, por exemplo, nas possíveis consequências sociais do cumprimento estrito do Tratado Orçamental num país endividado como Portugal.

Porém, este diagnóstico crítico e razoavelmente pessimista será totalmente ineficiente em termos de transformação social se a ele não se conseguir acrescentar uma reflexão concreta sobre os eventuais caminhos alternativos. Aquilo que se pede, ou deve pedir ao esforço crítico, por conseguinte, é a capacidade de vislumbre do que aí possa vir; por conseguinte, um dos papéis da crítica – não exclusivo mas, na minha opinião, legítimo – pode ser o da tentativa de discernimento não só das alternativas institucionais, como das possíveis formas de vida e de organização social concreta que transformarão de forma mais ou menos radical a realidade social.

Esforço difícil e um tanto ou quanto ingrato, porquanto implica um afastamento da realidade imediata, e um exercício de “imaginação”, um “olhar para lá do que se vê”. Mas não será exatamente disso que hoje necessitamos?

Notas

[1] Boltanski, Luc; Chiapello, Ève (1999), Le nouvel esprit du capitalisme, Paris: Gallimard.

[2] Boltanski, Luc; Corcuff, Philippe ; Fraser, Nancy (2014), Domination et Émancipation. Pour un renouveau de la critique sociale, Lyon: Presses Universitaires de Lyon.

[3] Boltanski, Luc; Thévenot, Laurent (1991), De la justification. Les économies de la grandeur, Paris: Gallimard.

[4] Horkheimer, Max (1972), Traditional and Critical Theory in Critical Theory: selected essays, New York: Continuum, pp. 188-243.

[5] Ricœur, Paul (1965), De l’interprétation. Un essai sur Freud, Paris: Seuil.

[6] Thuilier, Pierre (2000), Entretien avec Pierre Bourdieu: La sociologie est-elle une science?, Disponível em URL [Consult. 23 Mar 2014]: <http://www.larecherche.fr/actualite/aussi/entretien-pierre-bourdieu-sociologie-est-elle-science-texte-01-05-2000-76057>.

[7] Walzer, Michael (1983) Spheres of Justice: A Defense of Pluralism and Equality, New York: Basic Books.

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