Actor – Uma profissão de…“de vez em quando”

Dimensão analítica: Mercado e condições de trabalho

Título do artigo: Actor – Uma profissão de…“de vez em quando”

Autor: Rui Spranger

Filiação institucional: Encenador/Actor

E-mail: rui.spr@gmail.com

Palavras-chave: precaridade, recibos-verdes.

No recente filme “Birdman” nomeado para vários óscares, há uma frase que ressalta: “Você é uma celebridade, não é um actor”. Em Portugal, para o actor pouco resta de sonho que não seja tornar-se uma celebridade.

Até ao final dos anos 80 o actor trabalhava essencialmente em companhias de teatro como trabalhador por conta de outrem. Nos anos 90 as contratações passaram a enquadrar-se no sistema dos recibos verdes atirando os actores para uma situação de precaridade. No entanto, essa precaridade não se fez sentir em demasia. Os anos 90 foram os “anos gordos”, havia dinheiro a circular em Portugal (graças aos fundos da União Europeia), abriram as televisões privadas e começou a apostar-se na produção nacional. Por outro lado abriram mais cursos oficiais de teatro e houve ao mesmo tempo um forte investimento na cultura. Recorde-se que pela primeira vez foi criado um ministério próprio. No entanto, apesar do ministério da cultura e do dinheiro, nunca foi estabelecida uma estratégia nacional para o sector, havendo não raras vezes contestação aos concursos de atribuição de subsídios e mais tarde a campanha nociva da subsídio-dependência.

Com a entrada no euro e ainda antes da crise de 2008, começou a haver uma tendência para o lento desaparecer das companhias teatro no sentido tradicional do termo. Estas passaram a ser meras estruturas de produção, contratando os actores à peça. Começa-se então a sentir o drama de se trabalhar a recibos verdes. Ainda assim, o trabalho ou ia aparecendo ou os jovens recém-formados criavam novas estruturas de produção, gerando auto-emprego mas mantendo, até para si, o sistema dos recibos verdes.

A crise veio acentuar ainda mais o problema. Os cortes nos apoios às estruturas de produção de teatro foram de tal forma que estas ficaram condenadas a fazer um esforço hercúleo para sobreviver. Assim, abundam os monólogos ou peças para dois ou três actores, decaindo muito a oferta de trabalho. Acrescente-se ainda a diminuição de público e a queda do preço dos bilhetes provocando a prática generalizada de dumping.

No estado actual das coisas, os actores vêm-se obrigados a fazer toda uma série de trabalhos indiferenciados para de vez em quando terem a oportunidade de pisar um palco. Muitas vezes em produções independentes que vivem exclusivamente da bilheteira e que, com o dumping generalizado, não produzem retorno financeiro digno.

Ou seja, é quase impossível um actor viver do teatro e é impossível um actor viver do cinema em Portugal. No teatro ganha-se mal e o cinema não tem produção suficiente para se dele viver. Resta a opção da televisão. Mas até aqui, os contratos são sazonais. A questão é que se ganha o suficiente para se aguentar uns meses sem trabalhar. Quantos? Não muitos apesar de tudo.

Mas o problema, ou melhor dizendo, o Drama, não fica só pela questão da sobrevivência financeira nem pelo esvaziamento de uma profissão que deveria exigir dedicação total e que passou a ser uma profissão de “de vez em quando”.

O actor trabalha com as suas emoções e com a sua complexidade psicológica. Depende também muito do público e do seu reconhecimento e tendencialmente desenvolve comportamentos egocêntricos e narcísicos inconscientes. A oscilação entre o sucesso e o insucesso provoca sempre estados de angústia elevados, mas a ausência de oportunidades de trabalho e consequente falta de perspectivas provocam ainda a sensação de esquecimento e de injustiça.

Agravam-se por isso as doenças do foro psicológico, as dependências de álcool e drogas e, mais grave, os suicídios. Estes fenómenos parecem afectar mais os actores que se dedicam sobretudo à televisão do que os que se dedicam preferencialmente ao teatro, dado o grau de exposição e transformação da vida pessoal que a fama obriga. Não havendo trabalho em teatro, os actores mais conhecidos do grande público têm mais dificuldade em aceitar trabalhos indiferenciados que os actores menos conhecidos aceitam, como trabalhar nas áreas da hotelaria e restauração, por exemplo.

A saída para o problema não é difícil, exigindo apenas esforço e vontade do poder político e das estruturas empregadoras do sector. Um enquadramento legal da profissão e um quadro contributivo especial nas contribuições à Segurança Social; uma definição clara de serviço público com estabelecimento de contractos-programa e não uma mera distribuição ad-hoc de paupérrimos dinheiros públicos pelas estruturas de produção; o estabelecimento de preços de bilhetes de acordo com os custos reais de produção, são algumas das soluções. E enquanto elas não são aplicadas, importante seria que as estruturas de produção regressassem aos contratos de trabalho, garantindo as prestações para a segurança social e um eventual acesso a subsídios de desemprego.

O sector está claramente ameaçado e a caminhar de prejuízo em prejuízo.

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