Reflexões sobre as implicações da recomposição familiar nas questões escolares

Dimensão analítica: Família, Envelhecimento e Ciclos de Vida

Título do artigo: Reflexões sobre as implicações da recomposição familiar nas questões escolares

Autora: Cristina Cunha

Filiação institucional: Socióloga e investigadora (Instituto de Sociologia: Faculdade de Letras da Universidade do Porto)

E-mail: cristinacunha.m@gmail.com

Palavras-chave: Recomposição Familiar, Jovens, Contexto Escolar

Apesar da escassez de referências teóricas sobre as implicações resultantes de uma recomposição familiar no aproveitamento escolar [1], consideramos que este é um domínio que agrupa uma série de inquietações sociais e científicas em termos da relação família-escola e do seu impacto no desenvolvimento das crianças e dos jovens [2].

No campo da sociologia da educação, os primeiros estudos feitos sobre a relação entre a família e a escola tinham um caráter de natureza mais macro. Baseavam-se, sobretudo, na dimensão do “meio familiar de origem” [3] para explicar os resultados escolares. Para além disso, “no passado, as relações entre a família e a escola eram bem menos frequentes e, sobretudo, mais restritas em sua natureza” [4]. No decorrer do tempo, as análises passaram a assumir uma forma mais micro, tendo o enfoque sociológico passado a incidir mais sobre as trajetórias escolares e a ação da família no quotidiano da vida escolar. A escola por si, é também geradora de diferentes representações. Neste sentido, pode considerar-se que a instituição escolar se constitui, por um lado, um dos suportes da família [5] e, por outro, num dos espaços onde o jovem é diretamente confrontado com um conjunto de valores e visões das coisas, que moldam a sua identidade individual. Por conseguinte, é o lugar onde a criança ou o jovem se desenvolve e que vai influenciar as suas vivências e a sua forma de olhar o outro na interação e convivência com os seus pares.

No quadro da investigação desenvolvida, importa referir que, de um modo geral, é consensual para os jovens estudados (N= 477) que o recasamento ou união de um ou de ambos os pais têm influência no aproveitamento escolar do/a enteado/a. As diferenças de género são ténues, no entanto, as raparigas referem existir alguma influência. Já os rapazes acentuam mais essa influência. Por seu turno, são os jovens que estão inseridos em famílias nucleares que assinalam uma maior influência do recasamento no aproveitamento escolar. Quando questionados sobre a existência de um tratamento diferencial em termos gerais para com os jovens de famílias recompostas, apenas, uma pequena minoria (10,3%) respondeu afirmativamente, em particular, os rapazes. Para estes jovens, essa diferenciação de tratamento é protagonizada fundamentalmente pelos grupos de pares, seguido pelos familiares dos jovens e vizinhos, em suma, pelas pessoas mais próximas dos jovens de famílias recompostas. É ainda de salientar nos nossos resultados que, apesar de a maioria dos jovens entender que a participação no domínio escolar é da exclusiva competência dos pais biológicos, a participação das figuras do padrasto e da madrasta não é descurada mas com a permissão e o interesse do próprio enteado/a. São mais as raparigas a apoiar quer o envolvimento exclusivo dos pais, quer o dos pais sociais em associação com os primeiros. Dito de outro modo, embora seja dado uma maior relevância à participação dos pais biológicos na vida escolar, os jovens reconhecem que as novas figuras parentais podem assumir algumas responsabilidades nas questões escolares dos enteados.

A partir da análise dos significados de jovens oriundos de famílias recompostas sobre a questão das consequências do recasamento de um ou de ambos os pais na vida escolar, observa-se que os problemas escolares existentes para os entrevistados resultaram, sobretudo, da separação ou divórcio dos pais e não especificamente da recomposição familiar. Esta situação é corroborada por alguns estudos que defendem que as implicações negativas no domínio escolar ocorrem, sobretudo, por causa da separação ou divórcio, e essencialmente na fase da monoparentalidade [6]. De resto, a mudança de residência implica, a maior parte das vezes, mudança de escola e, por conseguinte, alguns constrangimentos no processo de adaptação ao novo contexto escolar. Por fim, os nossos entrevistados confirmam ser os pais biológicos os principais responsáveis pelas questões educativas, embora o contributo do padrasto e/ou da madrasta seja assinalado de forma mais reservado. Ainda que não tivesse sido apontado, de forma significativa, a ocorrência de problemas de aprendizagem escolar entre os jovens entrevistados – provenientes de famílias recompostas -, os nossos inquiridos revelam que estas dificuldades, a existirem, resultam fundamentalmente das consequências da separação dos pais e da má qualidade da relação dos enteados com os membros da família recomposta.

Notas

[1] Archambault, P., (2002). “Séparation et divorce: quelles conséquences sur la réussite scolaire des enfants?”. Population et Société, INED, 379.

[2] Mocetão, C. C., (2013). Representações e Vivências de jovens face à Recomposição Familiar. Porto: Tese de Doutoramento em Sociologia, Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

[3] Nogueira, M. A., (2005). “A relação família-escola na contemporaneidade: fenómeno social /interrogações sociológicas”. Análise Social. Lisboa, vol. XL (176) pp. 563-578.

[4] Montandon, 2001; Glasman, 1992 e Migeot-Alvarado, 2000 cit. por Nogueira, M. A. (2005). “A relação família-escola na contemporaneidade: fenómeno social /interrogações sociológicas”. Análise Social. Lisboa, vol. XL (176) pp. 563-578. 2005:574).

 [5] Déchaux, J. H., (1995). “Orientations théoriques en sociologie de la famille: autour de cinq ouvrages récents”. Revue Française de Sociologie, XXXVI, pp. 525-550.

[6] Jeynes, W. H., (2006). “The Impact of Parental Remarriage on Children: A Meta-Analysis”. Marriage and Family Review, 40(4), pp. 75-102.

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