Problemas científicos no estudo da ação coletiva contemporânea

Dimensão analítica: Cidadania, Desigualdades e Participação Social

Título do artigo: Problemas científicos no estudo da ação coletiva contemporânea

Autor: Nuno Nunes

Filiação institucional: Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, Instituto Universitário de Lisboa (CIES-IUL)

E-mail: nuno.nunes@iscte.pt

Palavras-chave: desigualdade social, teoria sociológica, epistemologia.

A ação coletiva e os movimentos sociais constituem um tema e um objeto de estudo duradouro por parte da sociologia, desde as primeiras formulações “clássicas”, nomeadamente Marx, Weber e também Tocqueville, e ao longo da produção científica dos séculos XX e XXI, concretamente, pelas teorias das classes sociais e da estratificação social, pelas teorias do comportamento coletivo e interacionistas, pelas teorias do conflito e dos novos movimentos sociais, e ainda pelas teorias da mobilização dos recursos, da ação estratégica e do processo político, entre muitas outras sub-teorias que procurar(am) acompanhar a riqueza social que caracteriza a ação coletiva na modernidade. Estas teorias inscrevem-se, ou exclusivamente em determinados modelos teóricos ou possuem a virtude de conseguirem interligar múltiplos paradigmas sociológicos, projetando-se para um desejável transparadigmatismo de síntese que se tem gradualmente imposto após as inconsequentes teses da pós-modernidade [1] [2].

Em diálogo dinâmico, as teorias das classes sociais, tomadas como eixo contributivo construtor das atuais perspetivas sobre as desigualdades sociais contemporâneas [3] [4], estão a comunicar com as meta-teorias capazes de formular problemas sociológicos suficientemente inovadores para a progressão do conhecimento científico, este necessariamente sustentado empiricamente [5] [6].

As teorias dos movimentos sociais e as teorias da mobilização dos recursos assumiram grande parte da recente legitimidade científica na explicação da ação coletiva contemporânea. Mas do ponto de vista epistemológico, três ordens de argumentação mutuamente interrelacionadas, permitem o questionamento da sua relevância científica atual: o seu confinamento a um determinado conjunto de problemas teóricos, a redução das suas potencialidades analítica e heurística e, finalmente, a incapacidade de intercomunicação paradigmática perante o surgimento de novos desenvolvimentos teóricos.

O estudo da ação coletiva nas sociedades contemporâneas deve acompanhar os mais recentes conhecimentos teóricos e requer um conceito de ação coletiva inclusivo e holista da multidimensionalidade e diversidade das realidades sociais. Implica que, a montante, se tenha em conta a complexidade estrutural e correlativamente as desigualdades sociais, e a jusante, as múltiplas construções sociais da ação, mediadas ao nível meso-social por atores coletivos, grupos sociais e organizações.

Um dos filões teóricos mais profícuos é o da articulação da teoria das hierarquias sociais [7]  com a teoria da prática [8] [9], capaz de enriquecer o eixo teórico-problemático das relações entre as desigualdades sociais, os agentes e os atores coletivos [10], permitindo aprofundar o conhecimento empírico sobre as atuais dinâmicas da ação coletiva, solidamente ancorado nos princípios epistemológicos da multidimensionalidade, interseção e globalidade das desigualdades sociais contemporâneas, estas manifestas de modo significativo nas multi-escalas macro, meso e micro-sociais das sociedades contemporâneas.

As desigualdades sociais condicionam fortemente a cidadania e a ação coletiva no contexto global, na Europa e também na sociedade portuguesa [11]. As desigualdades de classes, as desigualdades de género, as desigualdades económicas e de rendimento, as desigualdades de desenvolvimento humano, a nova desigualdade digital, os mecanismos condicionadores da democracia nos locais de trabalho e no espaço público da política e da sociedade civil, constituem fatores integrados que concorrem para uma diminuída ação coletiva.

A atual crise e as respostas à sua superação estão a reconfigurar as dinâmicas da ação coletiva nos países europeus. As conjunturas económica, política e social e os respetivos posicionamentos das organizações, governos e instituições nacionais e supranacionais, provocaram respostas diferenciadas de país para país, mas que, denodadamente, fizeram reemergir a importância da mobilização social enquanto instrumento democrático ao dispor dos cidadãos e das suas organizações e instituições representativas. A crise desvelou igualmente que a matriz filosófico-social da igualdade e da justiça social continuam a ser valores fundamentais das sociedades contemporâneas, ambos com elevado grau de cognoscibilidade para o incremento do conhecimento científico sociológico.

Notas:

[1] Alexander, Jeffrey C. (1998), The new theoretical movement in sociology, in Neofunctionalism and After, Malden (Mass.): Blackwell Publishers, pp. 163-209

[2] Almeida, João Ferreira de (2007), Velhos e Novos Aspectos da Epistemologia das Ciências Sociais, Sociologia, Problemas e Práticas, 55, pp.11-24.

[3] Therborn, Göran (ed.) (2006), Inequalities of the World. New Theoretical Frameworks, Multiple Empirical Approaches, London: Verso.

[4] Costa, António Firmino (2012), Desigualdades Sociais Contemporâneas. Lisboa: Editora Mundos Sociais.

[5] Mouzelis, Nicos (2008), Modern and Postmodern Social Theorizing, Cambridge: Cambridge University Press.

[6] Elder-Vass, Dave (2010), The Causal Powers of Social Structures, Cambridge: Cambridge University Press.

[7] Mouzelis, Nicos (2008), Modern and Postmodern Social Theorizing, Cambridge: Cambridge University Press.

[8] Bourdieu, Pierre (1979), La Distinction. Critique Sociale du Jugement, Paris : Les Éditions de Minuit.

[9] Crossley, Nick (2002), Making Sense of Social Movements, Berkshire: Open University Press.

[10] Nunes, Nuno (2013), Desigualdades sociais e ação coletiva nas sociedades contemporâneas: a fecundidade teórica de Pierre Bourdieu e de Nicos Mouzelis, Sociologia; Vol. XXV, pp. 33-53.

[11] Nunes, Nuno (2013), Desigualdades sociais e práticas de ação coletiva na Europa, Lisboa: Editora Mundos Sociais.

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