Portugal de calções e batina – Um olhar sobre o desporto e a academia

Dimensão analítica: Condições e Estilos de Vida

Título do artigo: Portugal de calções e batina – Um olhar sobre o desporto e a academia

Autor: Francisco Pinheiro

Filiação institucional: Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra – CEIS20

E-mail: franciscopinheiro72@gmail.com

Palavras-chave: Desporto, futebol, meio académico.

No dia 20 de abril de 2014, ao fim da tarde, o SL Benfica sagrou-se campeão nacional de futebol, perante mais de 64 mil pessoas em pleno Estádio da Luz. Centenas de milhares de adeptos saíram à rua um pouco por todo o País, concentrando-se uma enorme multidão no Marquês de Pombal, em Lisboa, para onde a equipa se dirigiu após o fim do jogo. As ruas adjacentes ao Marquês encerraram e um mar de gente invadiu a rotunda.

Três anos antes, a 5 de junho de 2011, o mesmo Marquês de Pombal foi o local escolhido pelo PSD de Passos Coelho para fazer a festa da vitória nas eleições legislativas. Poucos se recordam dessa festa… mas o leitor mais curioso pode procurar imagens na internet e ficará surpreendido que apenas umas poucas centenas de pessoas estiveram no Marquês. Não foi preciso encerrar a rotunda, bastou um pequeno espaço lateral para uma exígua festa de fim de noite, prelúdio de um período crítico para a sociedade portuguesa.

Estes dois episódios levantam algumas questões quando os corelacionamos. Além da questão simbólica do local (Marquês de Pombal) ou da festa em si mesma, temos algo mais profundo para analisar: a popularidade de ambos fenómenos e o interesse social gerado por cada um deles. Por um lado a política, geradora de desinteresse e cada vez maior afastamento (com abstenções superiores a 60 por cento) e por outro o futebol, dominador do espectro afetivo nacional e líder de audiências, com 19 dos 20 programas de televisão mais vistos em 2013 a estarem relacionados com esta modalidade.

Um dos primeiros argumentos para justificar este panorama é pensar que se trata de um fenómeno típico de Portugal, tentando com isso diminuir o papel cívico e a capacidade analítica dos portugueses. Normalmente o raciocínio mais simples é justificar a incapacidade de intervenção cívica e de alienação social dos portugueses através do futebol e dos jornais desportivos. Sobre isso recupero aqui uma frase do jornal Mundo Desportivo de 31 de janeiro de 1973, em que afirmava que «em Portugal, quando as pessoas não sabem fazer outra coisa, entretêm-se a criticar a imprensa desportiva», existindo mesmo quem a preferisse chamar de «imprensa futebolística». E quanto à educação do povo português, «não compete só aos jornais limá-la ou dirigi-la», nem ao futebol, cabendo sim a «todos a grande tarefa de educar, de instruir, de intelectualizar os povos». Quanto ao papel dos jornais, estes «podem formar a opinião do povo, mas não o educam», uma vez que a empreitada educacional devia começar a ser construída nos «bancos da escola primária», não sendo «missão exclusiva dos jornais desportivos». Relativamente à alienação das massas pelo futebol, o mesmo jornal dizia em 19 de junho de 1974 que «o futebol foi, é e será sempre o grande desporto das multidões» e «o futebol, como qualquer outro espetáculo, só aliena as massas quando as massas são, por natureza, fracas de espírito.»

Reparem como estes pensamentos, passados 40 anos, continuam a perpetuar-se na sociedade portuguesa, sobretudo através de uma elite intelectual que persiste em não entender nem olhar a sociedade em si mesma e os seus fenómenos de popularidade, como é o futebol. Dizem os argentinos, para justificar a sua paixão pela modalidade, que «quem não sente não entende». O mesmo se pode aplicar às artes e à poesia. Quem não entende, no caso português (e não só…) tende a depreciar e a estandardizar papéis sociais. Recordamos aqui que este fenómeno de popularidade não é estritamente português. As maiores audiências televisivas da história da Espanha e Holanda, por exemplo, foram a final do Mundial de Futebol de 2010, disputada entre ambas seleções. E nos EUA o evento televisivo mais visto anualmente é a final da Super Bowl.

Apresentados todos estes argumentos, passamos à reflexão final. Porque é que continua o desporto em geral e o futebol em particular, assim como o jornalismo desportivo, a serem temas secundários e pouco estudados na academia portuguesa? Espanha, França, Grã-Bretanha, EUA, Alemanha, Japão, Dinamarca, Finlândia, Brasil, só para citar alguns, são potências do ponto de vista do estudo e reflexão académica sobre estes temas. Licenciaturas, mestrados e doutoramentos contam com disciplinas dedicadas a dissecar estes temas e a produzir pensamento sobre eles. Existem grupos de investigação, sociedades nacionais de investigação, coleções editoriais e revistas científicas. Produzem-se regularmente teses de mestrado e doutoramento, financiam-se projetos de investigação e organizam-se grandes congressos internacionais. Em Portugal, os campos académicos da antropologia, história e comunicação continuam afastados do desporto e do futebol, só mesmo a sociologia se aproxima, e mesmo assim de forma tímida.

Alguns poderão estar a pensar que este afastamento da academia se deve a estes serem temas sociais e académicos recentes. Lembro, no entanto, que o futebol surgiu em Portugal em 1888 e a imprensa desportiva em 1875. Outros dirão que são fenómenos de popularidade muito recentes… a esses recordo que na estreia da Seleção Nacional de Futebol em solo português, a 17 de dezembro de 1922, em Lisboa, estiveram presentes mais de 25 mil pessoas. E que só no ano de 1924 estiveram em atividade 40 jornais desportivos em Portugal, do total de 940 jornais desportivos publicados entre 1875 e 2000.

O que nos falta? E com isto termino. Não nos falta tudo, mas quase. Falta-nos mais abertura do meio académico tradicional, ao nível das ciências sociais e humanas, para os temas do desporto. E falta-nos mais abertura do campo da educação física, tradicionalmente afastada das ciências sociais e humanas. Faltam mais estudos, teses, investigações, livros, biografias, grupos de trabalho. Falta abrir definitivamente a universidade e torná-la num “lugar em que a universalidade do espírito humano se manifesta”, como disse Einstein. E que maior manifestação do espírito humano que o desporto e o futebol, campo fértil para fazer perguntas sobre a sociedade contemporânea e sobre o próprio ser humano.

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