Dimensão analítica: Família, Envelhecimento e Ciclo de Vida
Título do artigo: Retire-se esperança às mulheres e desinveste-se muito certamente no futuro
Autora: Sónia Frias Piepoli
Filiação institucional: Professora Auxiliar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) – ULisboa. Investigadora do CEsA/ISEG – ULisboa; do CEMRI/Universidade Aberta; do CIEG /ISCSP – ULisboa.
E-mail: sonia.frias@iscsp.utl.pt.
Palavras-chave: Crise, Mulheres, Poder.
Apesar dos evidentes esforços de base legal e social, é indiscutível, o facto de que as mulheres, sobretudo as mais pobres continuam a ser, em especial no que respeita à sua situação socioeconómica e familiar, substancialmente lesadas nos momentos de mais severas crises económicas e conjunturais.
Se nos debruçarmos por exemplo na análise dos efeitos dos Programas de Ajustamento Estrutural implementados em vários países pelas diferentes regiões do mundo, é fácil concluir que, os custos reais, de um programa de ajustamento atingem muito particularmente segmentes de população já de si socialmente mais fragilizados, nomeadamente os pobres, os idosos, mas sobretudo as mulheres e por via delas, as crianças, e necessariamente as próprias famílias [1]
De há muito que fortes críticas se têm tecido a estes programas enquanto falsos instrumentos de desenvolvimento [2][3] dadas as apostas exageradas em bolsas de medidas herméticas, substancialmente lesivas em especial para as classes médias. Medidas cujos efeitos são ilusórios uma vez que a redução da despesa pública, ou neste especial contexto, de enfraquecimento da economia, acabam em regra por revelar-se inibidoras do desenvolvimento social e individual e muitas vezes constrangedoras da manutenção da própria sobrevivência doméstica, cuja responsabilidade tende, por todo o mundo, a depender sobretudo das famílias e no seio destas, em regra, a depender quase exclusivamente do esforço das mulheres.
As mulheres, uma vez que são elas quem tradicionalmente tem a responsabilidade direta de cuidar das crianças, dos doentes e dos mais velhos, acabam por ser as pessoas mais afetadas pelo desemprego (mesmo pelo desemprego masculino) e por todo um conjunto de reformas que acabam por implicar o aumento das dificuldades, da organização do dia-a-dia, da desesperança. Uma grande fatia de consequências invisíveis dos programas de intervenção para o ajustamento como aquele que agora se aplica em Portugal, afetam-nas muito diretamente, obrigando-as a esforços excecionais na resolução da sobrevivência das suas famílias. Esses efeitos no entanto, continuam na maior parte das vezes sem ser considerados estatisticamente, e por isso por não ser ponderados nas análises económicas.
O conceito de Desenvolvimento implica o estudo sistemático de um vasto conjunto de questões que respeitam à promoção das populações e das próprias sociedades e neste âmbito, o papel dos cidadãos, nomeadamente das mulheres, não pode deixar de ser reconhecido e tomado em linha de conta porque eles são elementos ativos e participantes plenos do processo, seja em temos sociais seja em termos económicos.
Entender as mulheres de forma diferente é, isso sim, marginalizá-las e destituí-las dos seus poderes, da sua energia, e insistir numa visão deficiente sobre o conhecimento objetivo de como se organiza e funciona a própria realidade.
Importa lembrar que esta ideia de poder (dos cidadãos em geral) não se fechou nos círculos de reflexão dos filósofos iluministas, o seu debate persiste, dada a amplitude e subtileza das suas possibilidades de utilização e interpretação. Importa por isso, que não esqueçamos que, mais do que arguir pelo poder económico, importa fazê-lo pelo poder de integração, do respeito, da dignidade, da legitimidade, e confiar nos efeitos significativos desse poder, em termos sociais.
Convencionalmente no entanto, o poder é, regra geral, entendido como a capacidade para dominar.
Nas relações de género quando se fala de poder, fala-se predominantemente do poder dos homens sobre as mulheres ou sobre o maior poder que, em termos gerais (políticos, económicos e sociais), a conjuntura vigente continua a atribuir em regra aos homens, por relação ao que atribui às mulheres [4].
O poder pode contudo ser utilizado de forma aberta ou mais ou menos subtil, dependendo do que estiver em questão. Em regra pensa-se o poder como uma força ou instrumento coercivo, mas importa admirá-lo também na sua utilização positiva, na sua efetividade para estimular outros. Em tempos de séria crise, como este em que vivemos, correm-se riscos de desmemória, de indefinição, confusão e mesmo relativização de valores. Correm-se riscos inesperados, pelo que importa muito firmemente não negligenciar conquistas e batalhas ganhas em prol do respeito, dos direitos e da dignidade de género. Importa por exemplo, ponderar na discussão sobre o aborto – contra o aborto – que se ativa presentemente em Espanha. Em Portugal fecham casas abrigo por falta de financiamento; afigura-se cada vez mais exíguo o apoio a projetos sociais e de ação social no âmbito de matérias relativas às mulheres carenciadas – vítimas de violência ou não; surgem propostas que visam voltar a reduzir a escolaridade obrigatória…
As crises são muitas vezes motor de desinvestimento, de alheamento, de impotência, capazes de inibir a intervenção social e destituir as sociedades, mas sobretudo as pessoas, de confiança. Retire-se a esperança às mães, às irmãs, às avós, retire-se espaço às mulheres e desinveste-se muito certamente no futuro.
Notas:
[1] Núncio, M.J. (2008). Mulheres em Dupla Jornada. A conciliação entre o trabalho e a família. Lisboa, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas – Universidade Técnica de Lisboa.
[2] Frias, S. (2006) Mulheres na Esteira, Homens na Cadeira, Por quanto tempo? Mulheres, economia informal e mudança Cultural: estudo realizado na cidade de Maputo, Lisboa, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas – Universidade Técnica de Lisboa.
[3] Massiah, J. (Ed.) (1993). Women in Developing Economies: Making Visible the Invisible, Oxford, Berg Publishers/UNESCO.
[4] Veyne, P., Vernant, J.-P., Dumont, L., Ricoeur, P., Dolto, F., Varela, F., Percheron, G. (1988). Indivíduo e Poder. Perspectivas do Homem. Lisboa. Edições 70.




Questão muito bem colocada e quase sempre negligenciada! A corroborar a tese da autora, no estudo que foi coordenado pelo economista Daniel Vaughan-Whitehead relativamente ao impacto da crise na Europa pode ler-se:
“Another way of looking at inequality is also to identify whether the adjustments are having disproportionate effects on certain categories of workers, especially those considered the most vulnerable. No doubt, certain categories of workers have been more affected by public adjustments. Lower employment prospects will directly hits those categories that tend to work in public sector, especially women, young people and migrant workers for some professions”.