Dimensão analítica: Educação, Ciência e Tecnologia
Título do artigo: Um olhar sobre as competências transversais na transição para o mercado de trabalho
Autora: Paula Gonçalves
Filiação institucional: Doutoranda na Universidade do Minho
E-mail: paulagoncalves@sapo.pt
Palavras-chave: Competências transversais, Diploma, Inserção profissional.
Se umas décadas atrás a obtenção de um diploma significava a entrada “quase direta” no mercado de trabalho na área da formação recebida, assistimos no presente a profundas transformações na vida económica, social e cultural da sociedade. A formação inicial com vista à inserção, manutenção ou progressão no mercado de trabalho deixou de ser pautada por uma relação linear e estável para se inscrever numa sociedade global marcada por um quadro de mutações permanentes e trajetórias difusas, onde a educação formal deixou de ser vista como garantia e passou a ser entendida como uma necessidade para enfrentar um mercado de trabalho qualificado e competitivo, em que a oferta de empregos é cada vez mais escassa.
Reconhece-se também, que seja qual for a instituição formativa, esta não pode preocupar-se, apenas, com as aprendizagens curriculares e/ou com a especialização técnica e profissional dos seus formandos. Na verdade, alterou-se o paradigma de que a obtenção de uma qualificação ou o atingir um determinado nível académico ou profissional seria a condição necessária e suficiente para a inserção e permanência no mundo de trabalho. As conceções teórico-práticas que se foram construindo na base de formações muito especializadas colidem agora com novas realidades, onde se configura uma multiplicidade de variáveis, levando os indivíduos a questionar-se acerca das suas competências de empregabilidade, pluralidade de vias de realização pessoal, possibilidades de carreira e desempenho profissional, entre outros. Mesmo existindo diferentes vias que permitem o acesso a uma qualificação ou grau académico, importa acima de tudo o desenvolvimento de competências transversais, propulsoras da inovação, reorganização ou reformulação dos projetos profissionais na chegada ou permanência no mercado de trabalho.
Nesta medida, o conceito de competência afasta-se do acúmulo de conhecimentos, passando a ser compreendido como a capacidade de aplicar e mobilizar um conjunto de conhecimentos, atitudes e habilidades face às múltiplas tarefas a realizar. Importa assim que os sistemas formativos assegurem uma formação que possibilite ao individuo transformar a informação adquirida, em saberes, competências e conhecimentos generalizáveis a fim de fomentar a descoberta e a ajuda na resolução dos problemas emergentes, e acima de tudo a vontade de continuar o processo de formação ao longo da vida.
Neste quadro, torna-se necessário a emergência de profissionais detentores de aptidões e competências flexíveis, com grande capacidade de adaptação à mudança, com uma atitude de reflexão contínua na definição de objetivos e condução da ação. O aparecimento do termo competência aliado à ideia de flexibilidade ou de adaptabilidade constitui, um marco fundamental no actual processo de transformação dos percursos escolares e profissionais [1] . Para estes autores, a noção de competência encontra-se intimamente associada à de transformação e, por consequência, enquadrada numa visão dinâmica e mais abrangente do trabalho, da formação e da carreira profissional.
Outros autores [2], conceptualizam como fundamentais, no contexto atual, o desenvolvimento de competências transversais nos domínios intra e interpessoal e profissional. Pelo facto, de ser detentor de múltiplos conhecimentos, não significa saber a mobilizá-los para o contexto de trabalho. Um sábio pode não ser necessariamente competente. Para agir com competência, torna-se necessário a mobilização de diferentes recursos, sejam estes de cariz intrínseco ou extrínseco ao individuo. Deste modo, agir com competência implica operar com o outrem, conhecer as suas deficiências e as suas vicissitudes, os méritos e os fracassos, as causas e as suas consequências.
Spencer & Spencer (1993), in Cabral Cardoso et al (2006) [3], sugerem um modelo de competência, recorrendo à representação do iceberg das competências onde o desempenho é, apenas, a face visível deste esquema. Nesta perspetiva os conhecimentos e o comportamento demonstrado transmitem explicitamente aquilo que o individuo é capaz de fazer ou executar. Por sua vez, para que estas características se tornem explícitas, torna-se necessário a existência de uns “alicerces securizantes”, baseados para o efeito nas características e atributos dos indivíduos, como sendo o autoconceito, atitudes, motivações, valores (…). São estes atributos que constituem a face oculta do iceberg, ou seja a face não visível, mas também ela determinante para a prossecução dos objetivos definidos, constituindo-se nos inputs do individuo que lhe permitem produzir os desempenhos competentes.
Importa assim atender nesse processo a características de personalidade, motivação, atitudes face ao trabalho e/ou carreira, sistema de valores, relacionamento interpessoal, comunicação (…) pois que podem facilitar ou inibir a inserção e o sucesso profissional dos indivíduos. Deste modo, incrementar as competências transversais significa estimular a maturidade do indivíduo em diferentes áreas que permitem o desenvolvimento de personalidades autónomas e flexíveis, capazes de se adaptarem e desenvolverem de forma dinâmica e contínua um quadro sociocultural e profissional em mobilidade permanente. Na verdade, se considerarmos a influência da auto eficácia na regulação comportamental, antecipamos uma maior capacidade para o indivíduo lidar com as transições, sendo este, provavelmente mais proactivo, determinado e perseverante nas suas estratégias de procura de emprego. Pelo contrário, a falta de confiança quanto a este aspeto poderá potenciar o evitamento e a inibição de comportamentos e atitudes proactivas. Assim sendo, o nível e tipo de competências adquiridas, podem constituir a diferença na maior ou menor facilidade de transição para o mercado de emprego e na manutenção ou não de um emprego adequado. Apela-se assim ao desenvolvimento holístico de cada indivíduo, capacitando-o para desenvolver os seus recursos e adquirir outros, assumindo a autoria do seu percurso de vida num contexto inconstante e desafiante.
Notas:
[1] Dugué, E., & Mailleboulis, M. (1994). De la qualification à la competénce: Sens et dangers d’un glissement sémantique. Education Permanente, 118, 43-50.
[2] Jardim, J., & Pereira, A. (2006). Competências pessoais e sociais: Guia prático para a mudança positiva. Porto: Edições Asa.
[3] Cabral-Cardoso, C., Estevão, C., & Silva, P. (2006). Competências transversais dos diplomados do ensino superior. Perspectiva dos empregadores e os diplomados. Guimarães: TecMinho.




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