Cultura de Projecto, construção de sentido e expressão de liberdade

Dimensão analítica: Educação, Ciência e Tecnologia

Título do artigo: Cultura de Projecto, construção de sentido e expressão de liberdade

Autora: Helena Neves Almeida

Filiação institucional: Professora Auxiliar Convidada, Universidade de Coimbra, Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação

E-mail: helena.almeida@fpce.uc.pt / helena.almeida03@gmail.com

Palavras-chave: projeto, liberdade, desenvolvimento.

O interesse pelo desenvolvimento de acções e de condutas orientadas por finalidades, é a expressão da procura de sentido de forma antecipada da actividade humana e institucional e constitui, hoje, uma referência para todos os que intervêm no domínio social. Neste contexto, o projecto constitui uma unidade analítica e operativa central, uma espécie de magia verbal que abraça, como refere Jean-Pierre Boutinet [1], na obra Antroplogia do Projecto, “num mesmo movimento, as condutas identitárias, as condutas criativas e inovadoras, as condutas preocupadas em dizer-se significantes, as condutas aptas a reconhecerem-se como autónomas” (1990:7).

É uma moda, e nela convivem derivações patológicas das condutas de idealização tomadas em termos individuais e locais, adaptáveis às circunstâncias e cerzimentos operacionalizados pelos diversos actores envolvidos. Com reflexos no domínio público e privado, a ideia de projecto integra o quotidiano das pessoas, em espaços e momentos de interacção interpessoal e profissional. É uma referência transversal. Entre amigos, quando alguém anuncia a maternidade ou paternidade, ou até o casamento, surgem com frequência expressões como: “foi planeada?”, “fazia parte do vosso projecto de vida?”; a ideia de planeamento chega até a conquistar e a integrar, por antecipação do momento da acção, domínios tão dispares como actividades de lazer “vou planear as minhas férias” ou actividades profissionais, “vou submeter um projecto para financiamento”,ou uma forma de traduzir uma ideia: “apresente-me um projecto”, solicitação frequente das chefias.

A cultura de projecto que caracteriza a sociedade pós-industrial, alicerça-se na necessidade de afirmar e legitimar as próprias iniciativas, e espelha uma obstinação projectiva, sobretudo em actividades que têm como público-alvo populações socialmente vulneráveis. Hoje quando se desenvolve uma actividade profissional, a nível individual ou colectiva, em contexto institucional ou comunitário, com indivíduos, grupos ou comunidades os actores confrontam-se sempre com as exigências de planear antes de agir, de forma a configurar o carácter intencional da acção. Tal facto conduz a uma proliferação de projectos a que se associa sempre a ideia de eficiência, ligada a padrões de pragmatismo e de legitimação de iniciativas e de procedimentos, mas raramente à sua eficácia. Este esforço traduz-se certamente num permanente desafio à criatividade e implica uma pesquisa obrigatória de sentido, mas frequentemente debate-se com a inoperância, devido a uma possível inadequação da acção à mutabilidade e dinâmica da conduta humana e das organizações, e com o argumento de que o aproveitamento de oportunidades nem sempre é compatível com a ideia de antecipação da acção.

Deste modo, um pressuposto básico de procura de sentido para as acções desenvolvidas a curto, médio ou longo prazo, quando orientado no quotidiano profissional para a obsessão do planear para agir, pode agregar um conjunto de orientações que, em vez de se integrarem numa lógica e estratégia de desenvolvimento e de mudança (individual e social) e regularem de forma sensível e adaptativa a acção ao meio e aos sujeitos, introduzem factores de perturbação e de controle social que adulteram o princípio da criação e da emancipação. Não faz sentido!

A vantagem da existência de um projecto, seja ele de que natureza for, inscreve-se na lógica do desenvolvimento do pensamento prospetivo e estratégico, que permita, por um lado construir uma visão global da ação, nas suas diferentes vertentes, e equacionar os objetivos visados e, por outro lado, avaliar, com antecipação, os desvios do percurso traçado, de forma a nele poder intervir atempadamente e de forma preventiva e construtiva. O projeto não pode ser encarado de forma determinista, sob pena de limitar as margens de liberdade dos sujeitos tomarem, em suas mãos, o seu percurso de vida e decidirem de forma adequada face à mutabilidade da vida e dos contextos. Ou seja, a previsão do desenvolvimento das ações e dos percursos de vida, fica condicionada à liberdade exigida pela necessidade de mudança de rumo. É nesta conjugação de capacidade de antecipação e simultaneamente de flexibilidade, que caracteriza a expressão de liberdade das pessoas, que reside a mais valia da existência de um projeto. Ele pode ser um motor de desenvolvimento, um instrumento ao serviço da motivação necessária para superar obstáculos, mas não basta. A visão instrumental do projeto esbarra muitas vezes com a ausência de estruturas de oportunidade, onde se inscrevem dimensões contextuais da implementação das atividades e desenvolvimento de competências, políticas de incentivo e apoio, que permitam a criação ou a co-criação de condições objetivas e subjetivas necessárias ao seu desenvolvimento. Porém, se a existência de estruturas de oportunidade são uma condição necessária, ela não é essencial para a mudança. A mudança apenas se consegue com trabalho, empenho, cooperação na constituição de uma verdadeira aliança entre vários atores sociais, sejam pessoas, profissionais, organizações, elites políticas e outros agentes locais. Nesta co-construção, o projeto exerce uma influência menor, apenas necessária ao estabelecimento de entendimento, responsabilidades e prazos. É um quase-contrato, não é um fim em si. São as margens de liberdade, não compagináveis com ideia de predeterminação do projeto, que permitem aos sujeitos agir com segurança na sua realização pessoal e social.

Nota

[1] Boutinet, Jean-Pierre (1997), Antropologia do Projecto. Lisboa: Instituto Piaget.

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Uma Resposta a Cultura de Projecto, construção de sentido e expressão de liberdade

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