O “lápis cor-de-rosa”: a não-notícia construtora de não-opinião

Dimensão analítica: Cidadania, Desigualdades e Participação Social

Título do artigo: O “lápis cor-de-rosa”: a não-notícia construtora de não-opinião

Autor: Hugo Mota Ferreira

Filiação institucional: Câmara Municipal de Peso da Régua – Divisão de Desenvolvimento Social

E-mail: hmotaf@gmail.com

Palavras-chave: Informação, Cultura, Participação Cívica.

Vivemos, actualmente, num vórtice de informação e contra-informação, de notícias e não-notícias, de factos e não-factos, de realidades construídas com base numa informação que nos chega “a quente”, exigindo-nos o seu consumo e não nos deixando espaço para a escolha, a triagem, enfim, a descodificação do seu conteúdo, intenção e pertinência. Mediante a torrente de informação que, diariamente nos é apresentada, “(…) nasceu uma espécie de hipercultura universal, que, transcendendo as fronteiras e baralhando as antigas dicotomias (economia/imaginário, real/virtual, produção/representação, marca/arte, cultura comercial/alta cultura, reconfigura mundo em que vivemos e a civilização que se aproxima.”

No turbilhão da “hipercultura”, a individualização, em detrimento do colectivo, ganha uma maior expressão enquanto eixo estruturante da realidade, obrigando-nos a uma “reformulação” da nossa percepção e vivência do real em todas as dimensões. Desde logo a questão do posicionamento do indivíduo face ao real, a erosão dos laços de solidariedade primária, a reconfiguração de prioridades, o efémero como base de sustentação transversal às diferentes etapas de construção de identidade, o consumo de ideias – e o desmantelamento de ideais – tornam o indivíduo um resultado híbrido de estímulos exteriores descoordenados mas eficazes.

Neste contexto, a difusão da informação, cada vez mais célere, mais intensa, e a democratização do acesso à mesma, proporcionam “bolhas” de acontecimentos/factos, que nos provocam a ilusão de um quotidiano menos local e mais global, como se o mundo fosse a nossa sala de estar onde, paulatinamente, assistimos ao desfilar de um enredo interminável, sobre o qual opinamos, indagamos, choramos, enraivecemo-nos e nos desiludimos. A massificação da globalidade enquanto “way of life”, o “longe agora tão perto” transformou, irremediavelmente, a existência do indivíduo, colocando-o diariamente, num “roleplaying” interminável, com personagens misteriosas mas, simultaneamente, familiares a cada esquina, sobre as quais despejamos toda  a sabedoria de um livre-arbítrio adquirido e consolidado, à deriva, num turbulento oceano informativo.

A dificuldade em lidar com esta “hiper-realidade”, traduz-se na ausência de capacidade e critério ao nível da triagem da própria informação. O processo mental de processamento da informação recebida é perturbado pelo constante “ruído” e quantidade da informação, colocando em causa compreensão, assimilação e estruturação da mesma, verificando-se, naturalmente, impactos indeléveis sobre a forma como percepcionamos e catalogamos a informação que nos é fornecida.

É curioso observar como esta nova realidade veio, em parte, baralhar os antigos paradigmas, mais ou menos intensos em determinadas fases da história, em que a ausência (e, muitas vezes, em casos mais extremos – dos quais restam escassos exemplos em regimes totalitários – a inexistência) da informação serviu como forma de controlo das massas, uniformizando e disciplinando uma opinião pública demasiado fragilizada pela ausência da liberdade de expressão, do livre-arbítrio, confinada ao imposto em detrimento do escolhido.

Actualmente pode-se dizer que se verifica uma mudança ao nível do “modus operandi” no que concerne ao controlo dos mecanismos de opinião e de pensamento. Com a tão propagada diluição das ideologias temos assistido, recentemente, à meteórica ascensão às estruturas de poder político de tecnocratas impolutos, messiânicos, alavancados pela eterna e “útil” questão da crise económica e social e legitimados, democraticamente, por eleitorados europeus demasiado assustados com uma previsível estagnação dos seus cartões de crédito, gadgets, férias “a la carte” e toda a panóplia de falsos bens de primeira necessidade impostos por uma economia feroz e sempre de sorriso sedutor que, todos os dias, e de diferentes formas, entra em nossas casas sem que para tal tenha de ser convidada.

Esta nova reconfiguração da ordem política europeia, coadjuvada por uma nova conjuntura internacional onde, ironicamente, a economia tudo determina, exige novas metodologias e instrumentos de controlo de opinião e pensamento, adaptados a uma turbe de consumidores compulsivos, relativamente indiferentes aos danos colaterais provocados pelo sonho de uma “existência dourada”. No meio de toda a panóplia informativa, mediante o aumento diário dos canais de comunicação, da “notícia na hora”, será a solução defendida pelas estruturas de poder vigente um perigoso regresso ao passado através da limitação ou, eventualmente, o corte ao acesso dessa mesma informação como forma de controlo da opinião pública? Será o regresso do tenebroso “lápis azul” a forma escolhida para fazer face a um descontentamento, tão intenso na forma como pouco convicto no conteúdo, por parte da sociedade actual? Aparentemente, a resposta é o “lápis rosa”.

Assiste-se, diariamente, a uma torrente de informação que vem inverter a lógica da prioridade noticiosa, lançando-nos para uma “terra de ninguém” informativa, de difícil catalogação e destrinça. Se o volume informativo que poderemos encaixar na categoria noticiosa era, já por si, uma massa compacta e supersónica, capaz de nos proporcionar um tour guiado por esta esfera de tonalidade azul que habitamos, após a chegada, implementação, proliferação (e legitimação) da dita “imprensa cor-de-rosa” constata-se a transformação do “fait-divers” em elemento informativo de excelência.

Esta reconfiguração de prioridades promove o torpor e passividade num pensamento colectivo demasiado ocupado com a ascensão e queda de (impostas) “figuras públicas” e “divas”, esgrimindo argumentos que sufraguem as banalidades e catarses de ignorância da “Casa dos Segredos”, “Gost(ando)o Disto”, deleitando-se com o “show” da “Fama”, aferindo as qualidades de políticos e ex-políticos enquanto diletantes “opinion makers” da bola, em modo “Prolongamento”, na hora, ou até mesmo no “Dia Seguinte”, enquanto pela manhã se espreita a “casa portuguesa, concerteza”, sita numa qualquer “Praça da Alegria”, onde se passam boas “Tardes (com) da Júlia”, relegando para segundo plano questões “menores” como o resgate financeiro de um qualquer país europeu e a capitulação de Estados democráticos e os seus Povos às mãos da máquina tecnocrata que dita, actualmente, os “prós” (mas, sobretudo, os “contras”).

Numa sociedade cada vez mais individualizada, este logro da aproximação ao “humano” em contraponto a um (convenientemente) distante “económico e social” funciona, na perfeição, como “manobra de diversão” relativamente ao “estado de sítio” da situação sócio-económica actual, promovendo um progressivo afastamento dos indivíduos da participação cívica e democrática juntos das estâncias decisoras, inebriados pelo glamour low-cost da “gaiola rosa” onde, dia após dia, a permanência na mesma se torna mais acolhedora e, simultaneamente, alienante.

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