O interior de um quarteirão do Porto: entre o público e o privado

Dimensão analítica: Ambiente, Espaço e Território

Título do artigo: O interior de um quarteirão do Porto: entre o público e o privado

Autora: Joana Vieira da Silva

Filiação institucional: Arquitecta formada na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto

E-mail: jovieirasilva@gmail.com

Palavras-chave: quarteirão, Porto

Na cidade do Porto permaneceram alguns interiores de quarteirão que conseguiram sobreviver na sua lógica de lotes, ou seja, onde é reconhecível a unidade casa à face da rua + jardim nas traseiras. Foram, na sua génese, projectos de espaço doméstico e de estruturação urbana, protagonizados pelas chamadas “casas do século XIX” que hierarquizaram a intimidade enquanto faziam cidade: fora de portas, a rua definia-se no alinhamento das fachadas estreitas e contíguas, lá dentro, a privacidade prolongava-se da casa para o jardim nos fundos. Estas casas, na sua sucessão de espaços interiores e exteriores materializaram uma redefinição da vida privada, com o estabelecimento dos valores e hábitos da família burguesa, que definiram claramente os limites entre o público e o privado. O interior de quarteirão era assim parte do universo da intimidade familiar.

As casas e as famílias continuaram a transformar-se. A cidade também. Sobreviveram significativos exemplares ou conjuntos dessas casas, identificáveis da rua pela referida sucessão de fachadas estreitas, mas muitas vezes profundamente desfiguradas, umas pelo abandono que as destrói exponencialmente, outras por projectos desinformados e pouco respeitadores da sua memória. Algumas transformaram-se seguindo directrizes legais para aprovação de projectos, decorrentes da actualização das noções de conforto e segurança (ou de gosto) que não se conciliaram com a tradição técnico-construtiva e tipológica dos mesmas, impondo a preservação da fachada e ignorando o edifício e a sua organização no lote como um todo coerente.

No entanto, em alguns foi-se cumprindo a razão superfície do lote/volume construído, o que fez permanecer a lógica de implantação, com o espaço de jardins e logradouros no interior do quarteirão.

Estas casas, sobretudo na baixa da cidade, vêem assumindo um protagonismo e uma valorização crescente e assistem a operações de “rehabilitação”. Originalmente unifamiliares, as casas foram divididas por pavimentos e multiplicaram-se as famílias que ali vivem, que são cada vez mais famílias unipessoais. Famílias de jovens adultos “sozinhos”, artistas, famílias sem filhos, que preferem apartamentos pequenos e gostam de morar nessas partes da cidade.

Verificam-se casos pontuais em que as casas puderam ser recuperadas num entendimento da sua coerência tipológica e aproveitadas no seu potencial: a possibilidade de investimento financeiro por um profissional liberal (o tal jovem adulto sem filhos) que compra o edifício e ali instala o seu escritório/atelier na cave ou loja e aluga partes do edifício a estudantes ou estrangeiros que residem periodicamente na cidade, ou por uma única família, o mesmo profissional liberal, mas com filhos pequenos. (Assinale-se, no entanto, uma importante diferença entre esta e a realidade na transição para o século passado, em que acontecia o inverso, isto é, fixava-se uma separação dessas funções, excluindo o trabalho da residência. Se existir um correspondente contemporâneo da numerosa família burguesa, que integrava crianças e criadas, nem aquela zona da cidade nem aqueles edifícios são, provavelmente sedutores – mora noutros centros e escolhe outras tipologias.)

Há, também, exemplos felizes de recuperações que a souberam entender. De um modo geral, aconteceu essa referida transformação da casa em habitações de menores dimensões, empurrados para as duas fachadas com janelas. O mesmo número de polícia foi então dividido em andares e subdividido entre frente e traseiras.

O interior do quarteirão. Entre a percepção visual e a efectiva possibilidade de o percorrer

A vivência do interior do quarteirão restringiu-se a quem mora nas traseiras. Cabe agora a cada uma dessas famílias a sua fatia de contemplação, muitas vezes através da janela, ou seja, nem sempre proporcionando a viagem do corpo lá fora. Só o habitante do apartamento do piso térreo tem essa possibilidade, pois quando o edifício se divide, o logradouro é normalmente parte do apartamento do piso térreo. No entanto, se esse habitante é o único que tem o benefício da efectiva possibilidade do corpo lá fora, é também, por outro lado, o único que perdeu a percepção do conjunto, estando limitado à visão circunspecta do seu logradouro, uma vez que o interior do quarteirão como um todo só é visível dos pisos superiores. E o que é mais paradoxalmente constrangedor, é que não conseguindo ver os outros logradouros (os iguais a si), sente o seu espaço invadido pelos olhares de todos os outros habitantes/famílias, que o contemplam de cima. Refiro a invasão dos olhares que sendo imateriais, podem, na nossa cultura ser considerados altamente invasivos, mas posso referir realidades físicas, como as beatas de cigarro que se atiram ou as migalhas da toalha que se sacode, ou a queda da própria toalha…

Público ou privado?

A definição do interior do quarteirão como espaço privado – por oposição à rua, que é pública – parte de noções de propriedade fundiária, porventura incompletas para definir o que sentimos hoje naquele espaço.

Público ou privado? A contemporaneidade gosta de recusar definições e fronteiras e talvez seja difícil definir o interior do quarteirão como uma coisa ou outra… sentimos que é uma coisa e outra. Vive-se ali simultaneamente uma dimensão pública e privada e ambas se interpenetram. Esta tensão condensa-se ao fim do dia, quando a luz natural diminui e as iluminações internas amareladas fazem reconhecer em cada janela, semelhante de dia, um mundo diferente à noite, revelado numa rotina própria, quase sempre doméstica ou familiar.

Traseiras ou Frente?

Assim, a noção de traseira é armadilhada, porque agora é a frente, e a única frente de muitas famílias. No entanto, será raro encontrar ali as bandeiras de Portugal que se suspendem aquando das competições internacionais de futebol, ou os estandartes religiosos com o menino Jesus nos períodos das celebrações cristãs, que observamos ao caminhar pela cidade… Isto porque é implícito que o interior do quarteirão, ainda que partilhado, não é a rua.

Preserva uma marca de domesticidade fortíssima e é por isso que, apesar de ter perdido o carácter exclusivamente privado e de ser a referida frente de muitas traseiras, permanece um refúgio. Os motores e as buzinas dos carros ouvem-se ao longe, mas pouco, porque as gaivotas gralham mais alto (e é verdade, há muitas).

Por outro lado, se nas fachadas da rua, nos apartamentos das frentes, o interior das habitações é raramente dado a ver, resguardando-se atrás de cortinados, num costume onde podemos reconhecer um certo pudor cultural ou decoro moral (diferente, por exemplo do que encontramos em Amesterdão, que tem uma escala próxima ao Porto na lógica da casa burguesa unifamiliar e contígua como elemento base, mas que não esconde o interior doméstico a quem passa na rua), nas janelas das fachadas traseiras é mais frequente não existirem cortinas.

E talvez porque cada um subentende que aquele canal não é rua, os corpos aparecem embrulhados em toalhas à saída do banho e a preparação dos alimentos é dada, mais ou menos inconscientemente, à vista do vizinho. Os moradores das traseiras manifestam uma menor reserva relativamente à exposição das intimidades quotidianas do que os moradores das frentes, ainda que, na prática, os vizinhos sejam tão seus desconhecidos quanto o são os transeuntes urbanos.

O interior do quarteirão vive numa tensão entre o público e o privado, como uma bolsa de ar de uma expectante convivialidade. Arriscar pensar em usos colectivos, questionar a sua condição de espaço privado e transformá-lo pontualmente em público, em operações conscientes e respeitadoras da sua memória poderiam ser formas de o integrar à cidade e às famílias actuais.

Nota

Esta artigo foi escrito tendo como inspiração um quarteirão particular do Porto, conformado a Norte pela Rua da Boavista, a Sul pela Rua de Álvares Cabral (os lados maiores do quase rectângulo que ele forma em planta), e a Este e a Oeste, respectivamente, pela Praça da República e pela Travessa da Figueiroa.

 

Fig. 1 – Interior de um quarteirão da cidade do Porto (Autora: Izabela Naves)


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