Activismo, tecnologia e reinvenções identitárias: que há de novo nos Movimentos Sociais?

Dimensão analítica: Cidadania, Desigualdades e Participação Social

Título do artigo: Activismo, tecnologia e reinvenções identitárias: que há de novo nos Movimentos Sociais?

Autora: Inês Pereira

Filiação institucional: Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (ISCTE-IUL)

E-mail: icfp@iscte.pt

Palavras-chave: Movimentos Sociais, Tecnologias de Informação.

O 25 de Abril, o 1º de Maio, o FMI, as eleições, a precariedade, a crise económica, a crise política. Em Portugal, na Tunisia, no Egipto, no Festival da Canção, no Facebook, no Ciberespaço. Vivemos dias agitados, em que o calendário revolucionário e as contingências nacionais e internacionais exigem respostas aos movimentos sociais, que se desdobram em comemorações, manifestações, alternativas. Novidade?

A sociologia dos movimentos sociais está particularmente atenta à existência de etapas históricas, criando os conceitos de velhos, novos e novíssimos movimentos sociais. A preocupação com o que há de novo invade também o discurso mediático e alimenta toda uma série de controvérsias. Por um lado, salientam alguns, os problemas repetem-se, os protagonistas eternizam-se, repertórios de acção tradicionais como greves e manifestações tendem a repetir-se, algo esvaziados de sentido e até as músicas são as mesmas. Por outro lado, afirmam outros, há novas ameaças e há também a globalização dos movimentos sociais, as plataformas virtuais, alguns novos e discretos actores que se imiscuem no sistema.

O embate com a realidade permite relativizar um pouco esta discussão, encontrando permanência, inovação e interessantes reinvenções. Atentemos um pouco nalgumas das mais significativas, prestando atenção especial ao papel das tecnologias de informação e ao seu contributo para a mobilização social contemporânea.

Em primeiro lugar, a mobilização social bem sucedida não se baseia exclusivamente em ideais e vontades, ancora-se, necessariamente, em determinadas infra-estruturas que possibilitam a acção. Entre estas, as ferramentas tecnológicas, em particular a internet, assumem, hoje, um papel de destaque, permitindo a comunicação sincrónica e alargada, com significativo impacto: (1) amplificando e divulgando lutas ancoradas num espaço local (atente-se por exemplo na revolução no Egipto que colou activistas aos canais de informação actualizados, originando uma onda de solidariedade manifesta na tradução e difusão em canais próprios dos acontecimentos e comunicados diários e levando, em Lisboa, à organização de algumas acções de rua) e (2) permitindo a coordenação de acções de larga escala que transcendem um colectivo específico podendo mesmo ser globais no seu alcance (por exemplo, em Portugal, a manifestação de 12 de Março, convocada e disseminada através de plataformas virtuais como o Facebook). Falamos, nestes exemplos de causas como a democracia, a censura, a precariedade laboral ou o próprio funcionamento do sistema capitalista, e de repertórios de acção tradicionais como uma manifestação. No entanto, por detrás destes exemplos, encontramos novas ferramentas de comunicação crescentemente utilizadas.

Em segundo lugar, a utilização das novas tecnologias reenvia para a adopção de novas causas. Não apenas porque se torna mais fácil tomar conhecimento de novas questões mas também porque as próprias tecnologias se tornam num centro do conflito. O próprio acesso à internet se constitui como leit motiv para a contestação, como o atestam movimentos ligados à liberdade de expressão e contra a cibercensura, à partilha de ficheiros, ao software livre, ao combate ao fosso digital. Questões que marcaram igualmente os últimos meses (veja-se o caso Wikileaks). Uma tendência que confirma algo que sabíamos desde as teorias dos Novos Movimentos Sociais: quando os centros de poder se deslocam, também os centros de conflito o fazem. Também aqui, as formas de acção não são necessariamente novas e os actores que as protagonizam também não têm de o ser.

A questão das novas tecnologias levanta ainda uma terceira questão, relacionada com os actores dos movimentos sociais e o eterno debate entre movimento e instituição, surgindo, para lá das organizações de movimentos sociais e das massas de activistas a possibilidade de um activismo a la carte, que decorre num espaço privado entre o indivíduo e a máquina, em relativo isolamento e anonimato. O espectro é amplo: desde as petições virtuais (como as recentemente divulgadas contra as agências de rating) até aos ataques informáticos (como no caso Wikileaks ou na revolução Tunisina), passando pela divulgação de comunicados e denúncias em sites e plataformas diversas. Do ponto de vista dos actores envolvidos, estas acções, que constituem também uma reinvenção dos repertórios contestatários, oscilam entre uma acção individual e esporádica até uma acção mais ou menos concertada, uma improvisação colectiva entre indivíduos ligados em rede (veja-se por exemplo o caso de Anonymous), fora dos conceitos tradicionais de movimento ou instituição. Novos actores e novas causas? Não necessariamente, mas novas formas de conceber a articulação entre actores e a estrutura de protagonismo dos movimentos sociais. Novos repertórios de acção? Sim, mas reinventando as mesmas causas, tal como o fazem de resto, outros activistas contemporâneos que, offline, vão criando alternativas de forma discreta, ancorada no espaço local que lentamente vão transformando.

Como se constroem, então, sentimentos de pertença colectiva entre activistas que já não estão, necessariamente, ligados estavelmente a causas e organizações? A mobilização social constrói-se, também, sobre uma ‘super-estrutura’ identitária que leva a sentimentos de pertença e de inter-reconhecimento mútuo. Comemorações identitárias em datas históricas como as que vivemos esta semana e que agregam diferentes gerações e estilos de activismo articulam-se com todo um universo iconográfico e simbólico que fornece uma estranha coerência feita de um pachtwork de referências. A música joga aqui um papel particularmente significativo. Velhos clássicos revolucionários de diversas origens caminham a par e passo com a música de intervenção portuguesa dos anos 70, e com trabalhos mais recentes (veja-se o fenómeno Deolinda). Nada de novo, na verdade, mas as sequências criadas pela multidão que canta numa manifestação e as versões actualizadas nos mais variados géneros musicais (olhe-se para as presenças dos Homens da Luta em manifestações recentes) reinventam constantemente esta herança revolucionária, que também circula pelos mais diversos canais, continuando a animar novas gerações de activistas. Quantas pessoas não postaram o FMI do José Mário Branco ou qualquer uma das músicas do Zeca no seu Facebook nas últimas semanas?

O 25 de Abril, o 1º de Maio, a crise… Novas e velhas exigências para os movimentos sociais, que se reinventam em novas ferramentas e estilos de actuação, ainda assim ancorados num património comum de referências, identidades e repertórios de acção.

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