A paisagem é um estado de espírito

Dimensão analítica: Ambiente, Espaço e Território

Título do artigo: A paisagem é um estado de espírito

Autor: Álvaro Domingues

Filiação institucional: Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto

E-mail: alvarodomingues2@gmail.com

Palavras-chave: paisagem, urbanização, dicotomia rural/urbano.


Autor – Álvaro Domingues
Local – Peneda (Arcos de Valdevez)
Data – em suspenso

O Foro Internacional do Feismo na Galiza (2006 e 2007) [1][2] é uma daquelas iniciativas em que melhor se percebe o que está em causa na maioria das discussões actuais sobre ambiente, espaço, território ou paisagem. O feísmo não era mais do que uma imensa declinação de factos e ocorrências sobre um certo mal-estar galego face à crise, ao carácter periférico do território, da economia e da cultura galegas, às mudanças radicais nas novas formas de produção de paisagem ou à dramatização sobre a “destruição” da velha Galiza cujos agricultores jardineiros da paisagem emigraram em massa.

Quando não se percebe muito bem o que é que as palavras designam – espaço, território, ambiente a paisagem, por exemplo -, estas transformam-se em conceitos vagos [3] que funcionam como esponjas: absorvem qualquer temática social e, apertando, também sairá de lá qualquer assunto. Ou seja, estes pseudo-conceitos transformam-se em dispositivos comunicacionais que, mais do que o conteúdo variável que possam conter, são usados como artilharia de arremesso nos processos de luta simbólica em momentos de mudança e de forte conflitualidade social.

É assim que vejo a maioria das discussões sobre o que muda nas paisagens (ainda denominadas) urbanas e rurais portuguesas. Face ao desconhecimento e à incompreensão do que está a mudar nos modos de territorialização da sociedade portuguesa, parece que a opinião corrente ficou presa entre o “Centro Histórico” e a “Aldeia Típica” como algo que simboliza a velha e boa cidade e a paz e o bucolismo dos campos e das suas gentes.

Entretanto tudo mudou numa espécie de dupla metamorfose da urbanização e do território da produção agrícola/florestal. Chamo a estas paisagens “Paisagens Trangénicas”, buscando na Biologia ferramentas conceptuais para se perceberem os novos organismos que resultam da engenharia genética. Também porque não existem paisagens híbridas, porque se perderam as linhagens “puras” do rural e do urbano que, misturando-se, resultariam no “rururbano”… A questão é mais radical:

– nunca houve um urbano, mas sim múltiplas formas de identificar processos e padrões de edificação  mais ou menos densos, misturados, fragmentados, extensos, compactos, etc.. Face a esta urbanodiversidade, a reacção tem sido no mínimo simplista: a velha cidade é a boa e a outra é feia e caótica; como não se estuda, inventam-se bodes expiatórios para dar uma ilusão de explicação (corrupção, laxismo, etc.). Diria que numa sociedade cultural e economicamente urbana, toda a edificação é urbanização e será urbano esse território. A provisão de infraestrutura (energia, infras de mobilidade de bens, pessoas e informação, água, gás, etc.) em vastíssimas áreas do território, diversifica e combina esses modos e padrões de urbanização mais ou menos genéricos. A velha cidade perdeu o monopólio da infraestrutura;

– o rural que houve só era homogéneo por ser um conceito negativo – tudo o que não era urbano. Hoje, se a agricultura é economicamente residual (2.8% do PIB em Portugal), e as culturas e estilos de vida perderam os tipicismos e as inércias das velhas tradições, não existirão camponeses. Como registo contraditório disto haverá esvaziamento quase completo na Terra Fria Transmontana; turismo no lugar dos campos do Algarve; casas, fábricas e estradas por todo o lado no minifúndio do Entre-Douro-e-Minho.

Quando andava na Rua da Estrada [4] procurava entender a superação da dicotomia rural/urbano ou campo/cidade. Simplesmente, a rede de estradas como suporte da mobilidade e da infraestrutura criou uma racionalidade própria, combinando efeitos genéricos com localismos e identidades locais. A Rua da Estrada é um dispositivo de colonização do território. Quem se preocupa com o modo como as coisas “devem ser” (quem legitima isso no meio da cacofonia das opiniões técnicas e das utopias irrealisáveis como a da sustentabilidade?), continua exasperado com isto. Paciência.

Chegará o tempo em que a contradição entre o que se pensa que as coisas devem ser e o que as coisas são será tão insuportável que acabaremos definitivamente por olhar para as coisas não através do trauma da perda que elas significam, mas através do que elas realmente são e do modo como se podem tornar mais funcionais.

Notas

[1] Baamonde, Anton [et al] (2006), Feísmo? Destruír un país, Consorcio Editorial Galego, Orense: Ed. Difusora.

[2] Ver também http://tv.uvigo.es/gl/serial/38.html.

[3] Bourdin, Alain (2011), O Urbanismo Depois da Crise, Lisboa: Livros Horizonte.

[4] Domingues, Álvaro (2009), A Rua da Estrada, Porto: Dafne.

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Uma Resposta a A paisagem é um estado de espírito

  1. augusto diz:

    parabens pelo belissimo trabalho que tem vindo a fazer

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