Do espaço (no) popular

Dimensão analítica: Ambiente, Espaço e Território

Título do artigo: Do espaço (no) popular

Autor: João Valente Aguiar

Filiação institucional: Instituto de Sociologia da  Faculdade de Letras da Universidade do Porto

E-mail: joaovalenteaguiar@gmail.com

Palavras-chave: cultura popular, espaço, discurso

Já dizia o ditado, “todos os caminhos vão dar a Roma”. E, no que tange à abordagem sociológica da produção de discursos e representações sobre o espaço, a centralidade analítica tem sido dada a discursos sobre o espaço mais ou menos cosmopolitas, mais ou menos heterotópicos [1][2], mais do que menos planos e fluidos [3][4]. Com efeito, parte relevante da Sociologia Urbana das décadas mais recentes parece ter no encanto pelo néon e na obsessão pelos equipamentos culturais de nova geração a sua Capela Sistina ou a sua Fonte de Trevi. Ora, relativamente à percepção e expressividade simbólica das classes populares sobre o espaço, quando muito, é-lhe reservado um lugar cativo no Coliseu [5][6].

O lugar relativamente secundário e quase ausente das classes populares que compõem parte significativa de territórios das cidades e das Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto parece esquecer a produção simbólica, nalguns casos secular e que ainda hoje continua florescente, desses agentes sociais acerca do espaço físico em que desenvolvem a sua vida quotidiana. Um indicador interessante e passível de auxiliar na aferição desse viver popular no e sobre o espaço pode ser encontrado nos ditados e provérbios populares. Ao contrário do que uma visão mais apressada sobre estes últimos poderia ser expectável, a verdade é que a tradição oral popular (portuguesa, mas não só) afigura-se bastante fértil.

Não se invoca aqui em detalhe os óbvios e recorrentes epítetos mais ou menos descritivos (“Tripeiro”, “Alfacinha”) ou mais ou menos depreciativos (“Mouros”, etc.). Também não se invocam dizeres por demais classificatórios e instruidores de qualidades (geralmente, de “defeitos”) pessoais tais como: “És de Braga?”, quando alguém se esquece inadvertidamente de fechar uma porta; “Amigo de Peniche”, utilizando os bons cidadãos daquela cidade como pretensas pessoas com pouco pendor para amizades sérias e perenes; ou, para atravessar fronteiras, “De Espanha nem bom vento, nem bom casamento” [7] e “isso fica na Cochinchina”, com a península que alberga Vietname, Laos, Cambodja e Tailândia a servir de referência epistolar para designar algo (bem bem) longínquo.

De facto, existem ditados populares que não só extravasam expressões e epítetos, como plasmam densas percepções sobre o espaço. Em termos identitários, ditados como “Em Roma sê romano”, “Na terra para onde fores viver, faz como vires fazer” ou “ Na terra onde há pão e vinho, faz como o vizinho” [evidentemente que estes ditados podem ter a conotação que o contexto histórico lhes pode imputar; desde uma certa “tirania” do nativo ou do habitante mais ancião sobre o recém-chegado que pode, em casos extremos, desembocar no racismo, até a processos de interiorização de práticas quotidianas relativamente anódinas de modo a evitar conflitos] actuam fortemente como operadores facilitadores de socialização. Muito mais do que uma performatividade inerente a estes exemplos – até porque, até certo ponto, todos os actos sociais têm sempre algo de performativo [8] – trata-se aqui da aprendizagem social da integração numa determinada comunidade. O jogo fónico, rímico e anafórico apenso à construção de ditados ajuda à simplificação vocabular e significacional dos referidos processos.

Em consonância com dinâmicas de integração social e cultural também existe uma percepção crítica e, digamos, realista do espaço da comunidade de inserção. O célebre dito “santos à porta de casa não fazem milagres” constitui o outro lado da moeda. Por outras palavras, é da possibilidade de os agentes sociais vestirem e despirem papéis sociais na sua zona residencial, no trabalho, no convívio, perto e longe de casa que se repercute a possibilidade ou impossibilidade de se assestarem golpes de asa nos mais variados campos da vida social.

Neste muito breve itinerário procurou-se, assim, apresentar modos pelos quais a cultura popular se compadece com uma percepção muito própria do espaço, em sede identitária, sociabilitária e prático-performativa. Rompendo com eivos de etnocentrismo cultural, que a retomada de estudos sobre a vivência popular [9][10][11][12][13] permita ampliar a paleta de cores dos estudos sociológicos sobre o(s) espaço(s). Porque, “onde há fumo, há fogo!”.

Notas

[1] Foucault, Michel (1984), Des espaces autres, In Architecture/ Mouvement/Continuité – Out.1984.

[2] Soja, Edward (1996), Thirdspace: journeys to Los Angeles and other real-and-imagined spaces, Oxford: Blackwell.

[3] Bauman, Zygmunt (2000), Liquid modernity, Cambridge: Polity.

[4] Friedman, Thomas (2007), The world is flat 3.0, New York:Picador.

[5] A socióloga Bev Skeggs aborda, entre outros aspectos, a produção de discursos que, dentro do quadro do neoliberalismo, têm catalogado as classes populares como agentes e grupos sociais “imorais” e “ilegítimos” no âmbito da apropriação do espaço (político, físico, simbólico).

[6] Skeggs, Bev (2005), Class, self, culture, London: Routledge.

[7] Pais, José Machado (2002), Sociologia da vida quotidiana, Teorias, métodos e casos. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.

[8] Butler, Judith (2005), Giving an account of oneself, Fordham University Press.

[9] Pereira, Virgílio Borges (2005), Classes e culturas de classe: classes sociais e modalidades de estilização da vida na cidade do Porto, Porto: Afrontamento.

[10] Pinto, José Madureira (org.) (2010), Ir e voltar: sociologia de uma colectividade local no noroeste português, Porto: Afrontamento.

[11] Silva, Manuel Carlos (2010), Classes sociais: condição objectiva, identidade e acção colectiva, Famalicão: Húmus Editora.

[12] Aguiar, João Valente (2009), Um objecto em vias de extinção: o resgate teórico-etnográfico da cultura e do trajecto sócio-histórico do operariado agrícola alentejano (1922-1974), Sociologia, nº19, p.127-153.

[13] Aguiar, João Valente (2010), Classes, valor e acção social, Lisboa: Página a Página.

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