O papel da educação para a mobilidade urbana sustentável

Dimensão analítica: Ambiente, Espaço e Território

Título do artigo: O papel da educação para a mobilidade urbana sustentável

Autora: Márcia Silva

Filiação institucional: Universidade da Beira Interior; Centro de Estudos Comunicação e Sociedade

E-mail: marciabarbosabsilva@gmail.com

Palavras-chave: cidades, mobilidade, educação.

Em Portugal, 66% da população utiliza o automóvel, como condutor ou passageiro, para se deslocar diariamente para o local de trabalho ou estudo [1]. O predomínio do automóvel, em detrimento de modos de transporte ativos, tem profundas implicações na qualidade de vida, na segurança, no tempo e na saúde das populações que vivem nas cidades. Alterar as práticas de mobilidade torna-se, por isso, fundamental não só para que o país contribua para o cumprimento das metas climáticas da União Europeia, que visam reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 55% até 2030 e 90% até 2050, mas também para devolver o espaço público às pessoas, promovendo cidades mais justas e inclusivas.

Atendendo a esta realidade, acelerar a mudança de comportamentos para uma mobilidade urbana sustentável tornou-se um objetivo central das agendas urbanas. Neste contexto, várias cidades portuguesas têm vindo a implementar políticas que desincentivam o uso do automóvel e, em simultâneo, fomentam formas de deslocação ativas e sustentáveis, incluindo restrições ao uso do automóvel em áreas urbanas, implementação de zonas de baixas emissões, Zonas 30 – áreas urbanas onde o limite de velocidade é 30 km/h, redes cicláveis, áreas pedonais ampliadas, sistemas de partilha de bicicletas e trotinetes, entre outras. Contudo, estas medidas enfrentam resistências associadas à forte dependência em relação ao automóvel e à ausência de envolvimento e participação nos processos de planeamento urbano, frequentemente orientado para o uso do carro.

Para além disso, importa ter presente que a mobilidade nas cidades configura realidades sociotécnicas [2] onde infraestruturas, tecnologias, valores, identidades, estilos de vida e relações de poder se entrelaçam, moldando decisões individuais e dinâmicas coletivas, bem como a forma como as pessoas percebem e utilizam o espaço urbano [3]. Por isso, acelerar a transição para a mobilidade urbana sustentável implica reconfigurações estruturais profundas de ordem física, económica, territorial, social, cultural e política. Para além da implementação de medidas técnicas, torna-se particularmente relevante refletir sobre os fatores que influenciam os comportamentos de mobilidade e criar condições para as comunidades participarem ativamente na construção de cidades mais justas e inclusivas.

Perante esta realidade, a integração da temática da mobilidade urbana sustentável nos conteúdos curriculares dos diferentes ciclos de ensino assume um papel estratégico. Ao promover uma compreensão mais profunda das consequências das escolhas de mobilidade criam-se oportunidades para que os/as estudantes explorem e experimentem práticas de mobilidade mais sustentáveis, como caminhar, andar de bicicleta ou utilizar transportes públicos. Entre as iniciativas desenvolvidas, destacam-se os comboios de bicicletas para a escola, programas para aprender a andar de bicicleta, os percursos pedonais escolares, entre outras atividades. Estas ações estão já presentes em cidades como Braga, onde o município promove o Pedibus” (as crianças vão a pé para a escola em grupo, acompanhadas por adultos, com paragens e horários definidos), os comboios de bicicletas (grupo de crianças que se desloca para a escola de bicicleta, também acompanhado por adultos, seguindo um percurso e horários definidos) e dinamiza programas para ensinar a andar de bicicleta, e em Lisboa, onde os comboios de bicicletas têm também sido implementados em contexto escolar.

No entanto, a educação para a mobilidade urbana sustentável permanece sobretudo restrita a ações pontuais, o que sublinha a importância de avançar para uma integração estruturada nos currículos escolares. Para que essa integração contribua para uma transformação mais profunda, considera-se pertinente a adoção de uma abordagem pedagógica transversal, que integre diferentes áreas do conhecimento e promova a compreensão da mobilidade como prática social. Poderá ser relevante, neste sentido, problematizar as relações entre espaço, tempo, poder e desigualdades no contexto urbano, reconhecendo que os modos de deslocação são moldados por fatores ambientais, socioculturais, territoriais e políticos, e condicionados por estruturas de poder. A mobilidade deixa assim de ser entendida apenas como uma escolha individual e passa a ser analisada como reflexo das formas de organização do espaço-tempo e das desigualdades inscritas no território.

Neste contexto, a escola pode ser entendida como um espaço de transmissão de conhecimento e desenvolvimento de pensamento crítico, onde os/as estudantes têm oportunidade de refletir sobre o presente e (re)imaginar futuros possíveis. Esta abordagem implica a aquisição de conhecimentos teóricos sobre mobilidade, articulados com dimensões éticas, sociais e políticas, fundamentais para a compreensão da complexidade dos sistemas urbanos. Ao explorar diferentes formas de viver, deslocar-se e ocupar o espaço urbano, os/as estudantes são desafiados/as a questionar os modelos existentes e a construir, em conjunto, alternativas mais inclusivas. A mobilidade torna-se, assim, não apenas objeto de análise, mas também campo de experimentação de futuros desejáveis, capazes de questionar as lógicas dominantes e de abrir possibilidades para imaginar e cocriar novas formas de habitar as cidades.

Responder a esta complexidade em contexto escolar requer, contudo, aquisição de competências relacionadas com pensamento crítico, responsabilidade social e participação cidadã. O desenvolvimento destas competências poderá contribuir para que os/as estudantes interpretem os desafios urbanos de forma informada e se posicionem como agentes de mudança. Será, por isso, pertinente refletir sobre como criar condições que favoreçam a participação cidadã efetiva em contexto escolar, no espaço público e nos processos de tomada de decisão. Educar para a mobilidade urbana sustentável, nestes termos, implica envolver os/as estudantes na produção de conhecimento, na experimentação de alternativas e na construção partilhada de soluções com impacto no espaço público. Estas competências são essenciais não apenas para a formação individual, mas também para fortalecer a capacidade de as comunidades atuarem de forma coletiva e participativa nos processos que moldam a cidade.

As mudanças mais significativas surgem quando cidadãos, instituições e organizações que vivem a cidade participam em processos de tomada de decisão. Nestes contextos, as comunidades deixam de ser apenas destinatárias e passam a participar na definição de prioridades e decisões sobre o espaço urbano. O ensino tem um papel fundamental neste processo ao capacitar os/as estudantes, preparando-os para participar ativamente na construção de cidades mais justas e inclusivas.

Notas

[1] Instituto Nacional de Estatística (2021). Censos 2021: Resultados definitivos, INE.

[2] Araújo, E. (2018). Questões de mobilidade, tempo e sustentatibilidade. In E. Araújo, R. Ribeiro, P. Andrade & R. Costa (Eds.). Viver em|a mobilidade: rumo a novas culturas de tempo, espaço e distância. Livro de atas (pp. 146-160). Braga: CECS.

[3] Sheller, M. & Urry, J. (2006). The new mobilities paradigm. Environment and Planning A, 38(2), pp. 207–226. https://doi.org/10.1068/a37268.

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