As crises do jornalismo: Da necessidade de o resgatar pela democracia

Dimensão analítica: Mercado e Condições de Trabalho

Título do artigo: As crises do jornalismo: Da necessidade de o resgatar pela democracia

Autor: Tiago Dias

Filiação institucional: Jornalista

E-mail: tdiasferreira@gmail.com

Palavras-chave: Jornalismo, Mercado de trabalho.

Os jornalistas gostam muito de números. Números – plural – dão uma visão abrangente, apontam o caminho, mas deixam o número – singular – para a reportagem, para o caso de estudo, para a ilustração da realidade. Gostaremos menos de olhar para os números da nossa profissão: um estudo recente [1] mostrava uma perda de 17,8%, em sete anos, no número de jornalistas em Portugal, para 5.621 no final de 2014. Outro número com potencial perturbador, não só para a profissão, mas também para a sociedade portuguesa, foi o revelado pela investigação sobre “As Novas Gerações de Jornalistas em Portugal” [2]: 63% dos respondentes (515 de um total de 1965 nascidos depois de 1975) admitiram já ter pensado em abandonar o jornalismo. Neste estudo havia ainda outro número que causou espanto: apenas 20 disseram ter enveredado pelo jornalismo para mudar o mundo. Mais números: um inquérito indicativo feito pelo Sindicato dos Jornalistas junto de freelancers sindicalizados apontava para uma média etária de 41 anos e para uma larga maioria que tem como rendimentos brutos mensais menos de 505 euros.

O jornalismo vive uma crise há muito tempo. De tal forma que são palavras que até custa escrever de tão gastas que estão. É uma constatação de realidade. Também o jornalismo em Portugal vive uma crise adicional há muito tempo. A profissão foi virada do avesso pelas novas (já não tão novas hoje) tecnologias. Se no exterior há exemplos, modelos de negócio variados, experiências diversas com diferentes graus de sucesso, em Portugal continuam-se a ver poucos esforços nesse sentido. Se, na origem, as empresas de media se tratam de companhias fragéis e fragilizadas, o impacto no diálogo a nível público é imenso. Não há democracia sem jornalismo livre e independente. Não é um mero lugar-comum e parece ser necessário reiterar este ponto. O jornalismo como tal é importante por constituir um dos pilares da democracia, enquanto vigilante. Contudo, só pode vigiar se a estrutura na qual se apoia permitir que o jornalista o faça. Se o objetivo da estrutura como um todo for esse. Se o objetivo for outro, há um problema.

As dificuldades económicas das empresas têm consequências nefastas nos seus trabalhadores e na crescente precariedade que se alastra. No estudo antes mencionado, 42% dos jornalistas nascidos depois de 1975 viam como possível o desemprego, 20% sublinhando que tal hipótese era “muito provável”. O medo do despedimento é real, mas não se fica por aí. Há também o medo da retaliação. O medo de estar sozinho. A precariedade do trabalho jornalístico tornou-se numa realidade à frente dos olhos de todos, mas sem que haja uma ação concertada para lhe pôr fim, porque são mecanismos que vão além do jornalismo. Não foi só esta profissão a ser fragilizada nas últimas décadas. Como consequência de redações delapidadas, exaustas e cada vez mais centralizadas assiste-se a um afunilar daquilo que é providenciado aos públicos e ao sistema democrático como um todo. Todos sofremos por isso.

Não são só os jornalistas que gostam de números. As administrações também gostam, se bem que por motivos muito distintos. Nos últimos anos, as administrações das empresas passaram a agir como quem acredita que o digital permite fazer mais e melhor com menos. O digital permite fazer mais com menos, mas não permite fazer melhor com menos. Isso reflete-se nos jornais, nas rádios, nas televisões, na Internet. Os despedimentos no meio jornalístico são o sinal por parte das empresas disso mesmo: “nós conseguimos fazer isto sem vocês”. Dizem que conseguem fazê-lo com estagiários-que-não-o-são, mas que não sabem como mais aceder à profissão, ou com “falsos recibos verdes” a quem os valores pagos são tantas vezes motivo de espanto junto dos camaradas com vínculo mais estável. As relações laborais entre o jornalista e o patrão, entre o jornalista e os demais, complexificaram-se.

Por isso, é preciso pensar formas de como recuperar o jornalismo para as mãos dos jornalistas, pela saúde do nosso sistema democrático. É preciso pensar o jornalismo para o bem de todos. Órgãos como os Conselhos de Redação não são apenas resquícios do passado. São estruturas essenciais para o nosso trabalho. O Sindicato do Jornalistas, da direção do qual o autor do presente texto faz parte, só pode crescer e contribuir para a discussão se contar com a participação de todos. Não basta, porém, ficar-se por aí. É preciso resgatar a opinião pública e fazê-la perceber a importância da informação independente. Só assim essa opinião poderá ser formada de forma construtiva. De outra forma, é opinião sem informação. E opinião desinformada é perigosa para qualquer futuro.

A importância da profissão não é uma tautologia: O Jornalismo – na sua expressão livre e independente – não é importante porque é importante. O jornalismo e os trabalhadores que o exercem são incontornáveis para o passado, o presente e o futuro de qualquer sociedade que se queira livre, informada e crítica. “Crítica” aqui é uma palavra-chave, porque a profissão não pode ser exercida sem ela, nem a sociedade pode viver libertada de constrangimentos na sua ausência. Não se trata da crítica pela crítica, mas do pensamento crítico informado. Do levantar de questões que promovam o desenvolvimento da sociedade e que se interroguem sobre os porquês. O jornalismo é essencial quando questiona para fazer questionar.

Notas

[1] Observatório Europeu de Jornalismo (2014) Portugal perde 1218 jornalistas em 7 anos, disponível em [consultado a 06 de setembro de 2015]: http://pt.ejo.ch/jornalismo/portugal-perde-1218-jornalistas-em-7-anos

[2] Rebelo, J. (coord.) (2014), As Novas Gerações de Jornalistas em Portugal, Lisboa: Mundos Sociais.

.

Esta entrada foi publicada em Economia, Trabalho e Governação Pública com as tags , . ligação permanente.

Uma Resposta a As crises do jornalismo: Da necessidade de o resgatar pela democracia

  1. Pingback: 3º Quadrimestre 2015 | Observatório Português sobre Condições de Trabalho

Os comentários estão fechados