A festa da patinagem nos Países Baixos

Dimensão analítica: Desporto

Título do artigo: A festa da patinagem nos Países Baixos

Autora: Maria Johanna Schouten

Filiação institucional: Universidade da Beira Interior

E-mail: schouten@sapo.pt

Palavras-chave: patinagem, identidade nacional, communitas, Países Baixos, desporto recreativo.

A modalidade desportiva mais popular em Portugal, o futebol, constitui um elemento significativo da imagem do país no exterior. Sabe-se que as personalidades portuguesas mais conhecidas em todos os cantos do mundo estão ligadas ao futebol, um facto baseado na sua performance mas possibilitado pela popularidade global  desse desporto. Neste aspeto o futebol distingue-se de algumas outras modalidades, cuja prática se limita a certos países ou zonas do mundo, de maneira que pessoas externas à sua população raramente participam e pouco interesse mostram. Contudo, o caráter quase exclusivo duma tal modalidade pode reforçar a ideia da unicidade do país em questão. Nos Países Baixos é o caso da patinagem no gelo, um desporto praticado como lazer ou em competição e que pode contar com milhões de (tele)espetadores entusiastas.

A identidade de um grupo, segundo Renan (1882), implica um sentimento de pertença entre os seus membros, ideia também presente no conceito de “comunidades imaginadas” de Anderson (1983). Para estes sentimentos contribuem fatores como a partilha de uma língua, uma religião e/ou a interpretação do passado. Goksoyr (1998: 105) ainda cunhou o conceito de “comunidade sentida” (em inglês: experienced community), aplicável quando uma sensação de interligação entre pessoas é suscitado por um acontecimento marcante, seja um desastre, seja um sucesso desportivo. A comunidade sentida é, por definição, temporária, coincidindo mormente com a duração do impacto dos acontecimentos em questão. Muitos grupos conhecem eventos de natureza religiosa, desportiva, ou outra, que se repetem periodicamente e que revivem ou reforçam os sentimentos de pertença. Para este tipo de rituais, em que um grupo ou uma nação através da partilha de uma experiência comum sente e festeja a sua conexão interna, Victor Turner (1967) aplicou o conceito de comunitas. Esta manifestação emocional de uma comunidade é um fenómeno frequente no desporto, como aliás abordado no livro recente de Edith Turner (2011) com o título eloquente de Communitas: The anthropology of collective joy.

Identidade implica ligação, mas também distinção. É através da diferenciação com outros grupos que um grupo manifesta as suas caraterísticas específicas, como acontece no desporto de competição. A patinagem de velocidade no gelo é um exemplo ilustrativo. Desde há várias gerações, patinadores/as neerlandeses/as têm-se posicionado nos lugares cimeiros nos torneios internacionais. A habitual obtenção de títulos europeus e mundiais ou de medalhas nos Jogos Olímpicos, resulta em sentimentos de orgulho por parte dos neerlandeses, que usualmente colocam de parte o diminuto (re)conhecimento desta modalidade no contexto internacional. Nos Países Baixos, nos fins de semana de inverno a televisão transmite, de forma contínua e para uma grande audiência, as competições de patinagem.

Na sua vertente recreativa, a patinagem no gelo tem muitos adeptos e nos dias mais frios há uma afluência de dezenas de milhares de patinadores aos lagos e canais do país. Não raros são os casos em que é concedido um dia de folga do trabalho ou da escola, constituindo a oportunidade para aproveitar as condições ideais para patinagem ao ar livre. As pistas de gelo artificial não substituem, de longe, a experiência única de uma volta sobre gelo natural, rodeada da paisagem pintada de branco, com as suas quintas, moinhos e álamos. Seguindo a tradição, terminada a atividade, os patinadores consomem, junto à pista natural, a típica sopa de ervilhas (snert) e leite de chocolate quente, ou ainda bolos típicos e zopie (uma bebida preparada com cerveja e ovo). A tradição culinária nos Países Baixos não é de “alto nível”, mas estes pratos, na sua associação com a patinagem, são muito valorizados. A patinagem ao ar livre, com as condições naturais e a gastronomia inerentes pode ser considerada como “tipicamente” neerlandesa, um sentimento que os próprios participantes incorporam.

Certos invernos proporcionam a ocorrência do ponto alto da patinagem neerlandesa, a “Elfstedentocht” (caminhada das onze cidades), que compreende cerca de 200 quilómetros na província de Frísia. Esta corrida só se realiza se o gelo tiver qualidade e espessura suficiente em todo o percurso. É um evento que parece ter um poder mágico, de tal maneira que por todo o país, em períodos de temperaturas negativas, as notícias e conversas são dominadas pela evolução da formação do gelo na Frísia. Apesar de a “febre” coletiva pela “Elfstedentocht” ocorrer todos os anos, as condições climatéricas só permitiram a realização desta corrida por 15 vezes desde 1909. A pesada exigência física da corrida, a sua realização na paisagem plana da Frísia, com as etapas marcadas pelas onze cidades históricas, e a popularidade da modalidade, são fatores que contribuem para a excitação, que se tem reforçado nos últimos anos devido à mediatização da sociedade e a intensificação da expressão pública das emoções, assinalável na sociedade em geral. A “Elfstedentocht” está envolvida num ambiente festivo e exuberante assemelhando-se, nesse sentido, a outros eventos periódicos na sociedade neerlandesa, como seja o caos alegre do dia da Rainha (“Koninginnedag”) ou as tradições em volta do São Nicolau (“Sinterklaas”). Estes eventos fazem sentir o “intense community spirit” inerente ao conceito de comunitas de Turner.

Contudo, a prática da patinagem no gelo e a popularidade das festividades associadas não são universais nos Países Baixos. Um certo distanciamento regista-se principalmente entre os “imigrantes não-ocidentais” e os seus descendentes. Estes grupos são, frequentemente, alvo de censura por parte de alguns partidos políticos de direita, que glorificam uma identidade neerlandesa, como o partido “Orgulhosos pela Holanda” (“Trots op Nederland”, TON), recentemente dissolvido. Um outro partido, o “Partido pela Liberdade” (“Partij voor de Vrijheid”, PVV), atualmente com dez por cento dos lugares no parlamento, aproveitou a intensa “febre de Elfstedentocht” de janeiro de 2012 para marcar a sua posição ao apresentar uma proposta segundo a qual o dia em que ocorresse a caminhada fosse considerado feriado. Este gesto pode ser explicado como tentativa de apelar a sentimentos de identidade nacional, não apenas no aspeto integrador (a “Elfstedentocht” é considerada como ingediente da tradição neerlandesa), mas principalmente na componente diferenciadora, sublinhando a diminuta afinidade que os imigrantes islâmicos têm com a patinagem.

Felizmente, esta modalidade não se tem tornado numa arma perigosa nas jogadas dos extremistas contra os não-tipicamente-neerlandeses. Estas jogadas continuam e inspiram preocupação. Mas a patinagem, por enquanto, é acima de tudo uma festa.

Referências

Anderson, Benedict 1983 Imagined communities. Reflections on the origin and spread of nationalism. London: Verso.

Goksoyr, Matti 1998 “The popular sounding board: nationalism, the people’ and sport in Norway in the inter-war years”, in Henrik Meinander e J.A. Mangan (org.) Sport in the global society: the nordic world. London: Frank Cass. Pp. 100-114.

Renan, Ernest 1882 Qu’est ce qu’une nation? Conferência na Sorbonne, Paris.  http://archives.vigile.net/04-1/renan.pdf (acedido 8-12-2006).

Turner, Victor 1967 The forest of symbols. Aspects of Ndembu ritual. Ithaca: Cornell University Press.

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