A luta continua no Museu

Dimensão analítica: Cultura e Artes

Título do artigo: A luta continua no Museu

Autor: Miguel Januário

Profissão: Designer, artista plástico e realizador

E-mail: mais.menos@gmail.com

Páginas pessoais: www.maismenos.net ; www.kissmywalls.com

Palavras-chave: graffiti, arte, museu

O graffiti (num sentido lato) vive hoje um paradoxo, mas este não é novidade, é apenas uma repetição. A diferença está no seu crescimento e na passagem de subcultura para movimento artístico e na consequente massificação e globalização dos meios de comunicação aliados à génese aglutinadora do mercado.

Foi nos anos oitenta que a ‘primeira vaga’ de artistas de rua entrou para espaços de arte contemporânea. Nomes como Keith Haring ou Basquiat são hoje referências incontornáveis da História da Arte, mas são artistas que anteriormente ao seu sucesso começaram por dar nome ao que hoje chamamos de graffiti, na sua vertente ilegal. Hoje o graffiti é um adjectivo muito mais amplo e as questões que esta passagem (rua-galeria) levanta são praticamente as mesmas, a diferença está no contexto histórico e na maturidade deste movimento. Em três décadas globalizou-se, evoluiu e cresceu nas mais variadas expressões e continua a criar, mais do que nunca, inúmeras referências na nossa cultura visual e artística. Não será portanto esta passagem (ou evolução) natural?

Na sua forma de expressão mais contemporânea, o graffiti, nasce nos pólos urbanos de maior densidade e caracteriza-se por ser um manifesto amplificado da liberdade de expressão, como um grito de cidadania que reflecte a vontade de afirmação, fruto de uma sociedade que ironicamente exalta o individualismo, mas reprime e abafa o indivíduo, remetendo-o ao anonimato. É a consequência irreverente e o resultado transgressor dessa mesma sociedade onde tudo é marcado, catalogado, distinguido pela identidade, pela imagem e pela persistência com que esta invade a nossa realidade. É, na sua génese, contestação, independentemente da forma que assume. Mas é assim porque transgride e apropria para si o espaço público, quando ao mesmo tempo democratiza as ideias e a arte, tornando-a acessível e abrangente.

Os novos meios de comunicação tornaram esta expressão ainda mais alcançável e democrática, mas num sistema de mercado aglutinador é impossível que produtos sociais consequentes dessa mesma estrutura não se tornem comercializáveis. A influência deste está presente em toda uma cultura, num novo mercado, agora super-massificado. Ao mesmo tempo é interessante reflectir que é no momento em que se transforma num produto de massas e se auto-afirma como uma corrente e consequentemente entra no espaço expositivo que o graffiti é considerado, finalmente, arte. Mas se é uma expressão tão vincada na contemporaneidade e a sua influência cultural é tão marcante, não deveria já ter sido considerado arte? Claro que sim, desde a sua primeira expressão, mas as estruturas activam-se com a sua institucionalização. Perderá a sua validade com esta mudança? Não será legítimo, não só porque vivemos num sistema de mercado, mas também porque a conquista está na génese do graffiti, que esse trabalho alcance novas plataformas? E se é esse mercado que, por simples essência, o graffiti procura contestar, como poderá ele sobreviver ou crescer de outro modo?

No fundo, o que estas questões resumem é a dúvida se um movimento de rua de carácter ilegal mantém a sua essência ao institucionalizar-se. Mas será que, logo à partida, ao auto-intitular-se de arte não se está a institucionalizar? Porque se colocarmos a questão ao contrário deparamo-nos com outra questão pertinente: ao institucionalizar-se, todo o graffiti que está na rua não deverá ser considerado arte e preservado nesse sentido como sendo arte pública?

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2 Respostas a A luta continua no Museu

  1. De facto, não partindo de uma folha branca Andrew Warhola aprofunda os aspectos indissociáveis da Arte e Vida (nos exemplos seminais de Keith Haring ou Basquiat). Empiricamente é uma ideia fácil de atingir, a vida como forma de arte… consciente ou inconscientemente (ver Guy Debord).

    Os espaços extraídos à realidade como museus ou salas de espectáculo funcionam na óptica da necessidade que os gerou, necessidade de conservação, ou exibição colectiva dentro de determinadas regras (ou contra estas, já no salão de Paris a sala “off” teve mais sucesso do que a exposição oficial…).

    O espaço público como espaço cénico da vida tem lógicas totalmente distantes das abstracções espectaculares, a interpenetração destas realidades (museu + rua) tem um somatório raramente > 0.

    A lógica quer da comercialização, quer do evento, ou mesmo de certo tipo de discurso não se coadunam com as necessidades estruturais do espaço físico urbano. Estas necessidades aguardam um banho de realidade.

    Quando o graffiti entra dentro do museu está a deitar-se fora a criança com a água do banho. Deixem a criança ser homem e construir a realidade dos nossos espaços públicos de uma forma altruísta, sem nunca esquecer de deixar claro que: com as grandes liberdades vêm as grandes responsabilidades (neste momento dos técnicos, curadores, agentes… que “desenham” as cidades, no futuro de todos nós!).

  2. Miguel Januário diz:

    Certo, Pedro, concordo contigo, mas precisamente porque o museu tem esse papel de validação, talvez seja apenas um processo necessário para validar, precisamente, essa realidade pública. Além de que o espaço-museu não açambarcou esta linguagem toda para si. Pode estar, como disse acima, precisamente a contribuir para uma maior massificação no seu espaço natural, que continua a ser, com todo o sentido e ainda bem, a rua.

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