Da cultura-espetáculo ao culto da incerteza

Dimensão analítica: Cultura, Artes e Públicos

Título do artigo: Da cultura-espetáculo ao culto da incerteza

Autora: Tânia Leão

Filiação institucional: Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto

E-mail: tania.l.leao@gmail.com

Palavras-chave: festivalização’ da cultura, desenvolvimento urbano, políticas culturais, precariedade.

DESAPARECEU_ARTISTA

Fonte: https://www.instagram.com/desapareceram/?hl=pt

Além de serem espaços de inovação e de reconfiguração social, política e artística, as diversas formas de expressão cultural tendem a (re)produzir o poder e a ordem vigentes. A partir do momento em que, com o avançar da globalização, a competição entre cidades ganhou contornos mais aguerridos, o valor da cultura deixou de ser predominantemente simbólico para se tornar materializável, tangível. Consequentemente, desde finais do século XX, as políticas de desenvolvimento das cidades têm estado alicerçadas num investimento dito estratégico na cultura.

A crença na mais-valia da cultura radica na perceção de que existe, neste setor, um potencial regenerador: de que a cultura tem o poder de fomentar o desenvolvimento económico e social. Tal convicção tem sustentado, aliás, as políticas públicas desenvolvidas na área. Mas essa é uma conceção que não tem levado em linha de conta diversas pesquisas de avaliação de impacto realizadas no domínio das ciências sociais, que mostram como são díspares os efeitos do investimento cultural. Ou seja, não há exatamente uma relação de causa-efeito entre o florescimento cultural e o crescimento da economia local, o desenvolvimento do turismo ou o reforço da imagem de marca das cidades. Na verdade, os efeitos dos eventos culturais no tecido económico, social e urbano dos lugares que os acolhem, podem, a médio e longo prazo, ser muito distintos.

Por exemplo, o fenómeno conhecido por gentrificação ou nobilitação urbana será, porventura — e ainda que de forma involuntária, como salientado por Sharon Zukin (2009) — um dos resultados mais perniciosos da transformação do património material e imaterial, das artes e da estética, em ativos financeiros. Neste processo, são os(as) próprios(as) protagonistas dos movimentos artísticos — nomeadamente, dos movimentos contraculturais — que, na sua demanda por autenticidade, vão afluindo às cidades, tornando-as mais atrativas para os investidores, e acabando por contribuir para expulsar as classes populares (e, eventualmente, a si próprios) dos bairros e dos centros das cidades. A consequência, paradoxal, deste movimento, acaba por ser a (tão desprezada) uniformização do espaço e do tecido social e cultural, em detrimento da (ambicionada) heterogeneidade e autenticidade que esteve na sua origem.

Quando se reflete sobre a relação entre cultura, economia e espaço, uma constatação usual é a de que, por um lado, o pendor economicista subjacente às políticas públicas mais recentes, na esfera da cultura, terá contribuído para a privatização, mercantilização e turistificação do espaço público. Por outro lado, e no plano estritamente cultural, tem-se verificado uma tendência para a reconfiguração das práticas culturais e dos lazeres urbanos, que precipitou as cidades para o investimento em iniciativas de ludificação do espaço e em projetos fugazes de cultura-espetacular’ ou de ‘cultura-repentista’.

A acentuada “festivalização da cultura” observada nas últimas décadas — conceito cunhado e aprofundado por Bennett et al (2014) — cumpriria, além do mais, uma função social: a de equilibrar o ímpeto globalizador, a crescente multiculturalidade e a mobilidade contemporâneas, com um apelo ao local, aos conceitos de comunidade e de pertença identitária. Os festivais culturais (e os eventos culturais em geral) têm, efetivamente, esse poder de agregação ritual, que deriva, hoje, da sua capacidade de evocar imaginários, pertenças culturais e estilos de vida.

Sucede que a nova dinâmica que se procura imprimir às principais cidades portuguesas — de que Lisboa e o Porto são exemplos gritantes — vindica celeridade e aparato. Os espetáculos querem-se abundantes, concentrados no menor número de dias possível, e assentes numa comunicação enérgica, imediata e apelativa (via comunicação social e nas redes sociais). A eficácia da comunicação é, aliás — e cada vez mais — o elemento que determina se um dado acontecimento cultural conhecerá o êxito ou o fracasso, se será consagrado ou votado ao esquecimento.

Em Portugal, onde a dotação orçamental para a cultura é historicamente exígua, além de se observar uma crescente mercantilização da dimensão cultural, conhecem-se outras dinâmicas, informais e oficiosas, que visam captar apoios estatais e concertar programas culturais em equipamentos públicos. Ao fazê-lo, não só os(as) programadores(as) participam na modelação da produção cultural, como o ato criador procura adequar-se a desígnios e apriorismos específicos (formais e substantivos). Os(as) programadores(as) e divulgadores(as) culturais têm, é sabido, essa função de gatekeeping. São, por definição, decisores e avaliadores dos bens culturais.

Mas existe um limiar de instrumentalização da cultura — como a sua captação pelos interesses económicos e políticos — que, ao seu ultrapassado, faz perigar a independência dos decisores culturais e a autonomia dos(as) artistas.

Os efeitos negativos de algumas destas opções são hoje visíveis.

Por exemplo, a superabundância de eventos culturais não é garante de diversidade, pelo contrário: as estruturas e artistas que se harmonizam com os pressupostos da espetacularização da cultura contemporânea tendem a ser os mesmos. Há uma tendência para a normatização da oferta cultural, nas suas diversas expressões, que propende a desconsiderar projetos arrojados e com uma roupagem menos convencional. O paradigma da ‘festivalização’ contribui, aliás, para formatar as expressões artísticas atuais. Há um conjunto de novos códigos, de símbolos e de formas de apresentação dos(as) criadores(as) e da própria prática artística — de autopromoção e de hipervalorização de acometimentos empreendedores — que têm vindo a ser assimilados e exercidos com níveis variáveis de senso (auto)crítico.

A aposta no efémero pressupõe, de resto, um desinvestimento no duradouro e contínuo. Promove um desperdício incompreensível em recursos de vária espécie: intelectuais, artísticos, físicos, logísticos e humanos. Além do mais, a celeridade não é compatível com a manutenção de postos de trabalho e com a celebração de vínculos laborais estáveis — tudo é precário e transitório, nomeadamente os(as) trabalhadores(as).

Quando o que se semeia de forma persistente é a contingência e a incerteza, a tarefa de urdir uma estratégia e um corpo de políticas culturais, de âmbito local e nacional, consolidadas e sustentáveis, é tão difícil quanto necessária. Em nome da liberdade e diversidade culturais, em nome da valorização e dignificação do trabalho cultural e criativo.

Referências:

Bennet, A.; Taylor, J. & Woodward, I. (coord.) (2014). The Festivalization of Culture. England, USA: Ashgate.

Zukin, S. (2009). Naked City: The Death and Life of Authentic Urban Places. USA: Oxford University Press.

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