Consumidores e consumos de suplementos alimentares

Dimensão analítica: Condições e Estilos de Vida

Título do artigo: Consumidores e consumos de suplementos alimentares

Autor: Vítor Rosa

Filiação institucional: Université Paris Ouest Nanterre La Défense

E-mail: vitor.vr@u-paris10.fr

Palavras-chave: Suplementos alimentares; Saúde; Bem-estar.

Ter uma “memória de elefante”, um ventre delgado, um bronzeado antes da hora… As promessas dos suplementos alimentares são atrativas. Estes produtos “inundaram”, nestes últimos anos, as prateleiras das farmácias, parafarmácias, grandes superfícies (décathlon, sport zone, go sport, etc.), lojas especializadas. São amplamente divulgados e vendidos na Internet e através da televisão, quer em Portugal, quer no estrangeiro. O seu consumo generalizou-se e encontra-se em crescimento [1].

A União Europeia define-os como géneros alimentícios que se destinam a completar (e não substituir) o regime alimentar normal [2]. No entanto, “estes produtos têm sido comercializados com outros objetivos, nomeadamente a prevenção da doença, a manutenção e melhoria da saúde, a melhoria do desempenho físico, ou a manutenção ou obtenção do peso corporal desejado” [1].

Constituem uma fonte concentrada de determinados nutrientes ou outras substâncias que têm efeito nutricional ou fisiológico [3]. Podem ser combinados e apresentam uma forma doseada, ou seja, em cápsulas, pastilhas, comprimidos, pílula, ampola, frasco, ou outras formas, que se destinam a ser tomadas em unidades de medida em quantidade reduzida. São preparações de reposição de vitaminas, nutrientes, minerais, fibras, ácidos gordos, aminoácidos, para as pessoas. Boa parte dos suplementos alimentares ainda não foi alvo de exaustiva investigação clínica exigida pelas autoridades e, noutros casos, os resultados obtidos não são iguais para todas as pessoas, em situações aparentemente semelhantes.

Os suplementos alimentares são vendidos sem prescrição médica, mas não são medicamentos. Eles situam-se entre o medicamento e o alimento. Não sendo um medicamento, “os produtos alimentares não são sujeitos a um controlo rigoroso semelhante ao dos medicamentos, sendo da responsabilidade do operador económico garantir a conformidade com os requisitos da legislação vigente” [1]. Por outro lado, os resultados têm revelado vários problemas na rotulagem e noutro material de divulgação [4]. Muitos são consumidos sem qualquer indicação ou acompanhamento médico. Prometem a melhoria do rendimento, emagrecimento e recomposição de vitaminas, no entanto, conhecem-se poucos estudos científicos sobre o assunto. O uso destes produtos tornou-se normal. Não se sabe ao certo os seus benefícios ou malefícios, mas há pessoas que não podem passar sem eles.

Manuel, 26 anos, praticante de basquetebol, é um adepto dos suplementos alimentares há vários anos. Produtos que ele encontra na Internet. No total, Manuel toma 3 pílulas por dia. Ele pratica o que se chama automedicação. Sem qualquer conselho médico, ele avalia sozinho as suas necessidades quotidianas. Mas pode-se fazer uma consumação diária sem riscos para a saúde?

Distinguem-se três famílias de suplementos alimentares:

  • os nutrientes essenciais: aqueles que o organismo humano não sabe sintetizar, mas que são indispensáveis para viver. Eles devem ser dados pela alimentação… ou por suplementos alimentares.
  • os nutrientes não essenciais: como todos os nutrientes, eles são derivados dos alimentos e têm uma ação no nosso corpo. Eles são considerados “não essenciais” porque o organismo sabe produzi-los ou eles não são indispensáveis para a vida.
  • Os extratos de plantas ou de produtos naturais: muitas vezes, a sua utilização remonta a origens ancestrais, baseada na experiência dos antigos. Eles contêm uma ou várias substâncias activas, mas nem sempre identificáveis. Note-se que a partir de certos produtos naturais, a pesquisa científica isolou diversas moléculas, dando origem a vários medicamentos (aspirina, taxotère, digitaline…). Segundo os produtos e segundo as doses, os seus componentes podem ter um efeito benéfico sobre o organismo, um efeito nefasto ou nenhum efeito.

No caso dos praticantes de desporto, este tipo de produtos é procurado para ajudar a obter um melhor rendimento nos seus exercícios físicos, beleza, saúde, etc. [5]. Ao falar de suplementos alimentares, aborda-se também a questão do doping/condutas dopantes [6], [7], que leva à alienação do Homem [8], [9].

O que nos provam os estudos científicos é que os efeitos benéficos de uma alimentação são superiores aos dos suplementos alimentares. Por isso, uma alimentação variada e equilibrada é primordial para a saúde, a boa forma física, a tonificação e o equilíbrio. Quando se come bem, não é necessário, a maior parte do tempo, de suplementos alimentares. Por outro lado, nenhum cocktail de suplementos alimentares pode substituir uma alimentação equilibrada [10].

Referências bibliográficas:

[1] Almeida, Ivone (2014). Segurança e biodisponibilidade de suplementos alimentares. Tese de doutoramento em Ciências Farmacêuticas (Nutrição e Química do Alimento). Porto: Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto.

[2] JO, L 183, de 12 de julho de 2002, Directiva 2002/46/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 10 de junho.

[3] Gomes, F. (2014). Caracterização do mercado português de suplementos alimentares em 2014. Dissertação de mestrado em Engenharia Alimentar. Lisboa: Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa.

[4] Durão, C. (2008). Suplementos alimentares – legislar é suficiente?. Alimentação Humana, Vol. 14, n.º 2, 77-87.

[5] Gomes, R. (2010). Consumo de suplementos alimentares em frequentadores de ginásio na cidade de Coimbra. Dissertação de mestrado em Medicina do Desporto. Coimbra: Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

[6] Bourgat, M. (1999). Tout savoir sur le dopage. Lausanne : Favre.

[7] Wadler, G.-I. & Hainline, B. (1993). L’athlète et le dopage. Paris : Editions Vigot.

[8] Gurérin, M. (2001). Le dopage dans le sport : une aliénation pour l’homme. Paris : FFCO.

[9] Laure, P. (2004). Les alchimistes de la performance : histoire du dopage et des conduites dopantes. Paris : Vuibert.

[10] Cynober, L.; & Fricker, J. (2010). La vérité sur les compléments alimentaires. Paris: Odile Jacob.

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