Consumo colaborativo: uma alternativa em tempos de crise?

Dimensão analítica: Condições e Estilos de Vida

Título do artigo: Consumo colaborativo: uma alternativa em tempos de crise?

Autora: Isabel Silva Cruz

Filiação institucional: Instituto de Sociologia – IS-UP

E-mail: imsilvacruz@gmail.com / http://isabelcruz.pt.to/

Palavras-chave: Consumo colaborativo, crise, redes sociais.

Em tempos de crise, como os que vivemos hoje, emergem modos de consumo alternativo caracterizados pela partilha, pelo sentido de comunidade, pela solidariedade e pelo privilegiar do acesso aos bens em detrimento da posse dos mesmos. Em mercados de 2ª mão, em ‘bancos de trocas’, em plataformas e sites na web, os consumidores procuram aceder aos bens de que necessitam, adaptando as suas práticas de consumo a orçamentos mais limitados. A internet e as novas tecnologias ao facilitarem o contacto e a interação entre as pessoas e as empresas contribuíram para o desenvolvimento desta nova prática de consumo, embora a mesma não se restrinja à web.

O consumo colaborativo retoma ideias e valores ancestrais, tais como a troca e a partilha de bens entre indivíduos. O consumo colaborativo constitui uma atividade de rotina diária que se alimenta de outras atividades quotidianas. Nas atividades quotidianas (refeições, deslocações, trabalho, escola) os indivíduos consomem bens e serviços ao mesmo tempo que se relacionam uns com os outros. Assim, os ‘atos de consumo colaborativo’ devem ser analisados em relação ao contexto (tempo e espaço) e às circunstâncias em que ocorrem [1].

O consumo colaborativo é um meio que permite aos indivíduos satisfazerem as suas necessidades e desejos de modo mais sustentável e com menor custo [2]. Ao mesmo tempo que satisfazem os seus desejos, os consumidores procuram desfrutar de experiências tão genuínas quanto intensas, associando aos bens de consumo emoções e sentimentos. Os bens (vestuário, automóvel, comida, filme, etc.) adquirem uma ‘estória’ que é recriada pelo consumidor. Neste processo a experiência sobrepõem-se à posse e o ‘usar’ prevalece sobre o ‘ter’.

A questão da confiança é uma questão central no consumo colaborativo. No ato de consumo colaborativo, a partilha e a troca de bens e serviços deve promover o estabelecimento da confiança. Este é um dos desafios que esta forma de consumo enfrenta.

O consumo colaborativo é percebido como tendo vantagens para todas as partes envolvidas (consumidores, empresas), em diferentes níveis: económico, social e ambiental. Em termos económicos, é possível poupar dinheiro através da partilha de bens (materiais e imateriais). A nível social, a troca e a partilha favorecem o contacto entre as pessoas e assim o estabelecimento de relações socias e de amizade. Em termos ambientais, ao partilharmos e trocarmos bens estamos a contribuir para a redução da pegada ecológica (menos lixo, menos emissões de CO2). A venda de bens que já não utilizamos, através da web (OLX, por exemplo) ou em mercados de 2ª mão, a cedência ou partilha de espaços por empresas (Cowork), constituem exemplos de modelos de negócios de economia de partilha.

A economia da partilha é caracterizada por 4 pilares fundamentais: i) plataformas digitais que conectam a procura à capacidade disponível; ii) transações que oferecem o acesso aos bens em vez da propriedade; iii) formas mais colaborativas de consumo, e iv) experiências de consumo de forte pendor emocional. Através da economia da partilha é possível oferecer e procurar na web novas formas de hospitalidade (aluguer temporário de quartos ou casas), de transporte (boleias), de entretenimento (aluguer de filmes, jogos, etc.) e até mesmo bens intangíveis (tempo, competências, saberes, entre outros). A economia da partilha permite aos indivíduos e às empresas ganhar dinheiro a partir de bens / equipamentos subutilizados [3].

Ao longo da crise os consumidores repensaram os seus valores e despesas, tornaram-se mais criativos e engenhosos de modo a conseguirem satisfazer os seus desejos com orçamentos mais reduzidos. O movimento em favor de um modo alternativo de consumo está a abanar o sistema económico estabelecido e parece perdurar para além da crise.

Notas

[1] Felson, M.; Spaeth, J. (1978), “Community Structure and Collaborative Consumption: A Routine Activity Approach”, American Behavioral Scientist, 21 (4), pp. 614-24.

[2] Botsman, R.; Rogers, R. (2010), What’s Mine Is Yours: The Rise of Collaborative Consumption, New York: Harper Business.

[3] Vaquero, A.; Calle, P. (2013), “The Collaborative Consumption: A form of consumption adapted to modern times”, Revista de Estudios Económicos y Empresariales, 25, pp. 15-30.

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