A travessia da Europa

Dimensão analítica: Cidadania. Desigualdades e Participação Social

Título do artigo: A travessia da Europa

Autor: Pedro Lima

Filiação institucional: Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica Portuguesa, Porto

E-mail: lima.pmr@gmail.com

Palavras-chave: Refugiados, Europa, Síria.

Segundo os dados mais recentes do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), mais de 60 milhões de pessoas têm neste momento as suas vidas suspensas um pouco por todo o mundo. Se todos os refugiados se juntassem e constituíssem um Estado, este seria o 24.º mais populoso do mundo. Destes 60 milhões, mais de 4 milhões são refugiados Sírios, famílias inteiras, ou simplesmente o que resta delas, em fuga de uma guerra que não começaram e que aparenta não ter fim à vista. Partiram porque querem sobreviver, porque ousam sonhar com um futuro que no seu país lhes é negado. E para isso colocam, pelo menos aqueles que dispõem de recursos suficientes, as suas esperanças e sonhos nas mãos das redes de tráfico humano. Depois é só esperar a oportunidade e ganhar asas, seguir viagem rumo ao sonho da bela e sedutora Europa, a Europa dos valores humanistas, da tolerância e da protecção dos direitos fundamentais, a Europa da solidariedade, que, no seu ideário os irá acolher de braços abertos.

“Hungria constrói cerca de quatro metros de altura na fronteira com a Sérvia”, “Mediterrâneo mata mais 22 refugiados”, titulava a Euronews a 17 de Junho e a 15 de Setembro de 2015, respetivamente. Manchetes como esta ocupam a capa dos jornais europeus diariamente. As pontes desabam e a esperança submerge no mar que, simultaneamente, nos une e nos separa, as asas do sonho nada podem perante cercas de arame farpado, e eles, cansados e moribundos, caem por terra e dão à costa, inertes, inocentes. “Enfrentamos circunstâncias excecionais, precisamos de uma resposta excepcional”, disse, no início de Setembro, o Alto-comissário do ACNUR, António Guterres, em Genebra. O mundo assiste, em pleno século XXI, a um drama sem precedentes desde a II Guerra Mundial. A Síria é um caso flagrante, no início do conflito tinha 22 milhões de habitantes, desde então cerca de 12 milhões (dos quais cerca de 6 milhões são crianças) foram obrigados a abandonar as suas casas, encontrando-se deslocados. Destes, cerca de 4.3 milhões encontraram refúgio nos países vizinhos. A Turquia recebeu, até ao momento, 1.9 milhões, o pequeno e pobre Líbano deu abrigo a uns impressionantes 1.1 milhões, o equivalente a cerca de 25% da sua população. A Jordânia, um dos pêndulos do Médio Oriente, acolheu já 630 mil, sendo o campo de refugiados de Zaatari, na proximidade da fronteira com a Síria, o maior campo de refugiados do Médio Oriente e um dos maiores do mundo, com mais de 81 mil residentes Sírios. O Iraque, um Estado fragmentado e a braços com o seu próprio conflito interno, alberga já cerca de 250 mil refugiados.

E a Europa? Quantos refugiados é que a rica e solidária União Europeia (UE) está disposta a acolher? A resposta deveria fazer-nos refletir. Os Estados-membros aprovaram no final do mês de Setembro um tímido e polémico plano de relocalização de 120 mil refugiados (a acrescentar aos 40 mil já aprovados em Março). A divisão no seio da UE é por demais evidente. O Reino Unido faz-se valer da cláusula de “opt-out”, o grupo de Visegrado – Polónia, República Checa, Eslováquia e Hungria – recusou prontamente as quotas propostas. Deste grupo, a Hungria, liderada pelo Presidente Viktor Orban, a quem o Presidente da Comissão Europeia já se refere carinhosamente como “o nosso ditador”, apresenta-se com a posição mais extremada, erigindo muros e atirando as responsabilidades para Alemanha.

De acordo com o ACNUR, nos primeiros 9 meses de 2015, já mais de 440 mil refugiados e migrantes atravessaram o Mediterrâneo com o objetivo de alcançar um porto de abrigo no velho continente. Destes, mais de 50% são oriundos da Síria. O ACNUR diz também que cerca de 2900 terão morrido ao tentar a travessia. Os números reais, se algum dia vierem a ser conhecidos deverão, seguramente, fazer corar de vergonha toda a humanidade, ou, pelo menos, o que ainda nos restar dela.

Na Europa, os argumentos que sustentam as posições mais extremadas contra o acolhimento de refugiados são diversos, mas os dois mais utilizados são facilmente rebatíveis. Por um lado, o receio do aumento do desemprego, algo completamente erróneo, pois a maioria dos empregos em que estes refugiados se vão ocupar são aqueles que a maioria dos Europeus se recusa a aceitar, ou seja, empregos que requerem baixas qualificações. Segundo Herbert Brücker, do Instituto de Pesquisa do Trabalho de Nuremberga, que analisou os poucos dados existentes sobre a estrutura de qualificação dos refugiados candidatos a asilo, apenas 20% são detentores de qualificação superior. Dados compilados pela Agência Federal de Emprego, na Alemanha, são ainda mais precisos e revelam um cenário idêntico num dos países que mais refugiados atrai: apenas 16% têm qualificação superior, 23% são profissionais experientes, sendo que os restantes não apresentam qualquer qualificação formal. Por outro lado, existe a preocupação com a segurança, o receio de que os terroristas possam aproveitar este movimento para se infiltrarem na Europa e levarem a cabo ataques terroristas. Da experiência que tenho, enquanto voluntário no terreno, posso afirmar que os campos de refugiados, normalmente longe da vista e onde a pobreza generalizada se perpetua, esses sim, é que são terreno fértil para o extremismo e para a incitação ao ódio. Recusar abrigo a estas pessoas é promover ainda mais a nossa ignorância e a nossa indiferença. Além disso, e segundo Gilles de Kerchove, Coordenador da Luta Antiterrorista da UE, não há qualquer informação no sentido de os militantes extremistas estarem a entrar na Europa por via do afluxo de refugiados e migrantes. Já o contrário não se pode afirmar, com cerca de 4000 europeus a endossar as fileiras do Estado Islâmico, apenas na Síria.

Aqueles que em 2011 advogaram uma mudança de regime na Síria, e foram muitos, devem hoje refletir profundamente sobre a sua posição. Depois de 4 anos de conflito, os números oficiais que, certamente, ficam àquem da realidade, apontam para mais de 240 mil mortos (dos quais 12 mil seriam crianças) e mais de 1 milhão entre feridos e incapacitados. É altura de dizer: basta! Há uma frase atribuída a uma mítica maldição chinesa que nos diz: “Desejo-te que vivas numa era interessante”. Para o bem e para o mal, parece-me inegável afirmar que vivemos numa era deveras interessante. Que tipo de história queremos que seja, no futuro, contada sobre o tempo em que vivemos e sobre a forma como o vivemos? Será uma história de maldição, ou uma história de compaixão e superação? Cabe a cada um de nós contribuir para que a resposta seja digna de vir a ser uma referência para a Humanidade, e não uma mítica maldição chinesa a pesar sobre a consciência da Europa.

Referenciação bibliográfica

Agence France-Presse (2015), EU anti-terror chief: very young Europeans joining ISIS, Disponível em URL [Consultado a 28 de Setembro de 2015]: <http://goo.gl/k9byS9>.

Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (2015), Estatísticas, Disponível em URL [Consultado a 27 de Setembro de 2015]: <http://goo.gl/dMiWic>.

Dettmer, Markus; Katschak, Carolin; Ruppert, Georg (2015), Rx for Prosperity: German Companies See Refugees as Opportunity, Spiegel International, Disponível em URL [Consultado a 28 de Setembro de 2015]: <http://goo.gl/GXngDm>.

Neuerer, Dietmar; Specht, Frank (2015), Refugee Agency Head Resigns, Handelsblatt – Global Edition, NO. 275, Disponível em URL [Consultado a 28 de Setembro de 2015]: <https://goo.gl/v8VShr>.

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