Cultura e digital em Portugal: alguns dilemas e ainda a língua portuguesa

Dimensão analítica: Cultura e Artes

Título do artigo: Cultura e digital em Portugal: alguns dilemas e ainda a língua portuguesa

Autora: Teresa Duarte Martinho

Filiação institucional: Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

E-mail: teresa.duartemartinho@ics.ulisboa.pt

Palavras-chave: cultura, digital, Portugal, dilemas, língua portuguesa.

A propósito dos planos de digitalização da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, José Manuel Costa, o seu diretor, afirmou recentemente – num debate público sobre o que considerou ser a subavaliação e o desconhecimento dos esforços da instituição na área da digitalização [1] – que a função e o problema material de digitalizar o património cinematográfico é algo “mais complexo e matizado” do que se pensa. A complexidade a que se refere, e que outros responsáveis por entidades culturais têm também referido em variados contextos, envolve múltiplos factores. Desde logo, a selecção dos conteúdos a digitalizar, não apenas pela provável diferença de critérios de valor como também pelo processo de digitalização poder depender da prévia preservação/reconstituição com recurso a meios analógicos, cada vez mais raros. Mas outros aspectos são fonte de complexidade e dilema, como demonstra quer a análise documental de fontes diversas quer os debates em torno do tema, como o que foi proporcionado, recentemente, pelo colóquio Cultura e Digital em Portugal em 2015, realizado no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Tratou-se de um encontro científico inaugural sobre a relação entre cultura e digital, com objectivos de balanço, reflexão e cruzamento de experiências inscritas no cenário português [2].

No que se refere a políticas no sector da cultura – e apesar da defesa do apoio à digitalização ter ganho, também nesta área, relevo nos programas governamentais dos mais recentes executivos [3].–, o quadro afigura-se mais disperso do que concertado. À falta de um plano abrangente, as entidades culturais investem esforços de acordo com os seus diversos recursos e métodos de trabalho. Isto, quando é cada vez mais sublinhada, pelos profissionais intervenientes, a importância do progressivo alinhamento do trabalho das instituições com iniciativas congéneres, designadamente em matéria de standards, estes de crescente necessidade à medida que crescem e se complexificam os acervos digitais e as exigências de integração com outros serviços de acesso em rede [4]. Não deixa de ser sintomático que a iniciativa de criar uma plataforma (cultura.pt), com a finalidade de desenvolver uma intervenção articulada da participação portuguesa na construção do gigantesco museu e biblioteca virtual que é o portal Europeana – através de um enquadramento comum para o conjunto de projectos na área da disponibilização de conteúdos online – tenha partido dos organismos responsáveis por três programas de digitalização, de especial fôlego, do património cultural português: Biblioteca Nacional Digital (Biblioteca Nacional de Portugal); MatrizNet (Direcção-Geral do Património Cultural); Cinemateca Digital (Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema).

Poder-se-ia ainda mencionar um outro conjunto de problemas e dilemas, focados pelos coordenadores de programas de digitalização de património e responsáveis de empresas de tecnologias da informação – e ainda no âmbito do debate encetado no colóquio Cultura e Digital em Portugal em 2015. Um dos paradoxos apontados foi a ausência – apesar do elevado número de acessos aos conteúdos, das reutilizações transversais e das expectativas de utilizadores – de meios regulares de investimento para acompanhar a evolução tecnológica e implementar processos de preservação digital. As dificuldades na manutenção e no crescimento de infra-estruturas de arquivo digital relacionam-se também com a falta de profissionais especializados dedicados a esta tarefa de forma exclusiva nas instituições culturais. Trata-se de um problema que anda a par da não continuidade das equipas/projetos no médio e longo prazo e de um tipo de formação mais centrada nos instrumentos do que nos processos e conceitos. A morosidade dos processos de clarificação de direitos entra também no elenco dos dilemas detectados.

Há ainda que observar a vulnerabilidade da língua portuguesa no tempo do digital. A propósito, é de relembrar que, de acordo com o discurso dos programas dos governos mais recentes, a digitalização de conteúdos culturais e científicos é defendida como promotora da difusão da língua portuguesa. Mas segundo o estudo A Língua Portuguesa na Era Digital [5], de 2012, o português, apesar de ter um elevado número de falantes (220 milhões, em 2012), arrisca-se a perder relevância na sociedade da informação, se não for reforçado o investimento em programas científicos na área das tecnologias da linguagem. Existe no tempo do digital, e ainda de acordo com a pesquisa citada, um hiato profundo entre o inglês e qualquer outra língua, hiato este bastante mais escavado perante o português. Depois do lugar muito mais destacado do inglês e de um segundo grupo de línguas (constituído pelo francês, alemão, holandês, árabe e chinês), a língua portuguesa situa-se num terceiro conjunto, menos bem apetrechado para fazer face ao tempo do digital (os idiomas búlgaro, lituano e húngaro integram também esse segmento mais fraco). A sobrevivência das línguas na sociedade de informação afigura-se, assim, estreitamente dependente de serviços tecnológicos da linguagem, designadamente ao nível da tradução automática, por via de engenhos sofisticados.

Tempo, então, de relembrar Fernando Pessoa, e fazer justiça à associação que teceu entre pátria e língua portuguesa, tendencialmente mal interpretada. O “alto sentimento patriótico” de Bernardo Soares – que escreveu, no Livro do Desassossego, “Minha pátria é a língua portuguesa” – nascia da sua clara inclinação para a defesa e protecção da presença do português, da sua consciência de que “a ortografia [e a língua portuguesa] também é gente. A palavra é completa vista e ouvida”. Daí o seu ódio, “o único ódio que sinto”, face à “página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse” [6].

Prevê-se que a atmosfera digital, que também veio reconfigurar a materialidade do objeto ‘livro’, receba, ainda em 2015, o Livro do Desassossego numa iniciativa inédita e muito particular: o da edição/arquivo digital hipermédia dedicado a esta obra, resultante do projecto ‘Nenhum Problema Tem Solução: Um Arquivo Digital do Livro do Desassossego’, coordenado por Manuel Portela. Adaptando o dito de Bernardo Soares, afirmamos que o texto é completo se visto e ouvido. E tanto mais o será se for possível fazer coexistir, como o referido projecto se propõe, as várias edições críticas do Livro do Desassossego publicadas em Portugal. A narrativa da sua composição e a natureza do trabalho literário poderão, por esta via, ser melhor compreendidas. Tanto numa aventura pessoal de leitura como na apreciação crítica das escolhas e argumentos dos diversos editores deste singular texto: uma reunião de palavras determinantemente indeterminada, deixada por Fernando Pessoa aberta a qualquer sondagem e ordenação.

Notas

[1] Costa, J.M. (2015), “Trabalhos de casa”, jornal Público, 29 de Maio.

[2] A autora do presente texto integrou, com José Luís Garcia (ICS-ULisboa) e João Teixeira Lopes (FLUP), a comissão científica e organizadora deste encontro científico, realizado em 17 de Junho (ver http://www.ics.ul.pt/rdonweb-recursos/events/2015-06/2015-06-17.pdf).

[3] Garcia, J.L. (coord.); Lopes, J.T.; Neves, J.S.; Gomes, R.T.; Martinho, T.D.; Borges, V. (2014), Mapear os Recursos, Levantamento da Legislação, Caracterização dos Atores, Comparação Internacional, Lisboa: Secretário de Estado da Cultura. Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliação Culturais (GEPAC) e Principia Editora.

[4] Patrício, H.S. (2010), Desenvolvimento de serviços digitais na Biblioteca Nacional de Portugal: cinco perspectivas fundamentais, Actas do Congresso Nacional de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas, nº 10.

[5] Branco, A.; Mendes, A.; Pereira, S.; Henriques, P.; Pellegrini, T.; Meinedo, H.; Trancoso, I.; Quaresma, P.; Lima, V.L.S. (2010), A Língua Portuguesa na Era Digital / The Portuguese Language in the Digital Age,
White Paper Series. Berlin: Springer.

[6] Pessoa, F. (2012), Livro do Desassossego. Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, Lisboa: Assírio & Alvim. Edição de Richard Zenith (10.ª edição), p. 260.

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