Dimensão analítica: Condições e Estilos de vida
Título do artigo: Estilo de vida e exercício físico
Autor: António Cruz
Filiação institucional: Médico – Cardiologista
E-mail: antoniojosercruz@gmail.com
Palavras-chave: Sedentarismo, Exercício físico, Prevenção cardiovascular.
Ao longo de milhares de anos de evolução o Homem tornou-se um animal sedentário. Quando caçador/recolector passava grande parte do tempo a correr atrás de comida. Mas com a revolução neolítica e mais recentemente com a revolução industrial reduziu significativamente a atividade física quotidiana. Nos últimos 50 anos, a mecanização e automatização da sociedade; a melhoria nas redes de transportes públicos e a maior utilização de veículos motorizados próprios; e o incremento de atividades sedentárias nos tempos livres (televisão, computadores), agravaram significativamente o sedentarismo.
A única maneira de combater esta progressiva inatividade (e os consequentes malefícios) é promover a prática regular de exercício físico.
A atividade física definida como: qualquer movimento corporal, produzido pelos músculos esqueléticos, que resulte em gasto energético maior que os níveis de repouso, deve ser diferenciada do exercício físico que é um tipo de atividade física mais estruturada e com propósito claramente definido de melhorar o desempenho e/ou a saúde. Portanto existe um enorme espectro de atividade física que vai desde a atividade física da vida diária (atividade física doméstica, laboral e ligada ao deslocamento), passando pelo exercício físico ligeiro e moderado, até ao desporto de alta competição.
Apesar de conhecida, desde os anos 50 do século passado, a relação entre a prática de atividade física e prevenção cardiovascular, e nos dias de hoje ser universalmente aceite que o sedentarismo é um importante fator de risco, só uma reduzida percentagem de europeus e ainda menor da população portuguesa, pratica exercício físico com regularidade.
O benefício do exercício físico faz-se sentir em qualquer grupo etário, tanto em homens como em mulheres e em qualquer grupo étnico. Quer a intensidade, por um lado, quer a frequência e duração (volume) do exercício físico por outro, influenciam de uma forma “dose dependente” o grau de benefícios na prevenção de doença cardiovascular (mais exercício físico tem como consequência maior prevenção cardiovascular)
O exercício físico condiciona, no sistema cardiovascular, benefícios diretos como: maior estabilidade elétrica do miocárdio; melhor função cardíaca; redução do risco de trombose aguda. Tem ainda efeitos indiretos alterando outros fatores de risco como: redução do peso corporal; melhoria do perfil lipídico; melhor resposta a programas de desabituação tabágica; melhoria na prevenção e controlo da diabetes; redução da tensão arterial.
Muitos destes benefícios perdem-se, senão totalmente pelo menos de uma forma muito significativa, algumas horas ou alguns dias após o período de exercício, portanto é necessário uma regularidade desse exercício, sem a qual o benefício torna-se irrelevante. Logo, tal como na maior parte das terapêuticas com fármacos, é necessário repetir periodicamente o exercício físico para que o benefício seja cronicamente mantido.
Embora a utilidade do exercício físico seja maior no sistema cardiovascular não devemos esquecer que existem outros efeitos benéficos: reduz o risco de cancro do cólon e da mama nas mulheres; previne a osteoporose; contribui para a preservação da função cognitiva e diminui o risco de depressão e de demência; diminui o stress e melhora a qualidade do sono; melhora a auto-imagem e a auto-estima, aumentando o bem-estar e o otimismo; aumenta a apetência sexual.
Mas como já referido anteriormente a adesão ao exercício físico é baixa. Uma sondagem Eurobarómetro publicada já este ano aponta que 59 % dos cidadãos da União Europeia nunca, ou muito raramente, praticam exercício físico ou fazem desporto. Só 36% da população portuguesa faz exercício físico. A Europa do Norte é fisicamente mais ativa do que a do Sul e o Leste: 70 % dos inquiridos na Suécia, Dinamarca (68 %) e Finlândia (66 %) afirmaram que praticam exercício pelo menos uma vez por semana. No outro extremo da escala, 78 % na Bulgária, Malta (75 %), Portugal (64 %), Roménia (60 %) e Itália (60 %), não praticam exercício ou fazem desporto.
Em Portugal, e com raras exceções, a promoção da prática de exercício físico tem sido esquecida pelos vários governos e autoridades de saúde, pela comunidade médica e pela sociedade em geral.
É portanto fundamental implementar estratégias de promoção do exercício físico. Existem campanhas e diretivas supra nacionais (ONU, OMS, UE), que devem ser adotadas, adaptadas e executadas dentro do nosso país. As estratégias governamentais e de organismos ligados à saúde têm, de uma forma enérgica, fomentar a prática de exercício físico a todos os grupos etários e populacionais. É necessário promover exercício físico em crianças e adolescentes (o exercício físico em jovens é o maior preditor de manutenção do mesmo na vida adulta), nos mais idosos e mesmo nos grupos de indivíduos com algumas inaptidões físicas.
É imprescindível o empenhamento das autarquias (criando, por exemplo, ciclovias para lazer mas também que sirvam a mobilidade urbana) e das agremiações desportivas, na cedência de espaços para a prática de exercício.
Os meios de comunicação social têm um papel fulcral da divulgação e promoção da prática generalizada de exercício físico já que as suas campanhas gozam de grande visibilidade na população.
A sensibilização dos empregadores na cedência de espaços e tempo para que os seus funcionários pratiquem exercício físico nos locais e dentro dos horários de trabalho será benéfica para as empresas, já que está provado que a prática de exercício físico diminui o absentismo laboral.
É também fundamental o empenhamento dos profissionais de saúde. O sedentarismo tem sido o fator de risco onde menos intervenção se tem verificado na prática clínica, e quando se incentiva o exercício físico deve-se mais à existência de outros fatores de risco (obesidade, hipertensão, dislipidemia) do que um combate ao sedentarismo. Ordenar, se possível, exercício físico e não atividade física, de uma forma adaptada ao indivíduo (preferência pessoal, condicionalismos ortopédicos) e como se de uma terapêutica convencional se tratasse (com uma dose, intensidade e volume).
Por último, e não menos relevante, é necessário o envolvimento de grupos familiares e grupos de amigos, até porque, tão ou mais importante de que promover o início do exercício físico é criar condições para este se manter como uma rotina agradável.
Quando se discute a sustentabilidade do SNS, é essencial fomentar a prática de exercício físico transversalmente a toda a sociedade portuguesa, conseguindo, com custo reduzidos, enormes ganhos a nível de saúde.
Bibliografia:
Archer, Edward; Blair, Steven (2011), Physical Activity and the Prevention of Cardiovascular Disease: From Evolution to Epidemiology, Progress in Cardiovascular Diseases, Volume 53, Issue 6, pp. 387-396.
Comissão Europeia (2014), Special Eurobarometer 412 – Sport and Physical Activity.
Marega, Marcio; Atalla, Marcio e Carvalho José (2012) Manual de Atividades Físicas para Prevenção de Doenças, Hospital Albert Einstein.
Rocha, Paulo (2013), A pandemia da inatividade física: recomendações de ação para a saúde pública, Revista Factores de Risco, Nº29, ABR-JUN, pp. 30-36
Schuler, Gerhard; Adams, Volker and Goto, Yoichi (2013), Role of exercise in the prevention of cardiovascular disease: results,mechanisms, and new perspectives, European Heart Journal, 34, pp. 1790–1799.
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