Mães fora de tempo…A gravidez na adolescência

Dimensão analítica: Saúde

Título do artigo: Mães fora de tempo…A gravidez na adolescência.

Autora: Dina de Jesus Peixoto de Carvalho

Filiação institucional: Escola Superior de Educação do Porto

E-mail: dina.peixoto@gmail.com

Palavras-chave: gravidez, adolescência, saúde.

Nascem, em média, 12 bebés/dia de mães com idades compreendidas entre os 11 e os 19 anos (o que implica mais de 4 mil grávidas adolescentes por ano). De acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), Portugal tem ainda um dos valores mais altos de fertilidade adolescente da Europa. Na União Europeia dos 27,o nosso país ocupa a oitava posição.

O que sentem estas meninas? Algumas delas ainda crianças ou no despertar da adolescência. Levados pelo interesse espontâneo partimos do quotidiano para chegar a um mundo de significações.

Quando começamos a esboçar as primeiras linhas deste texto, fomos assaltados por intensas recordações da primeira ida ao hospital. Íamos entrevistar meninas que viriam a ser mães brevemente. A primeira menina que entrevistamos – a “Carolina” – tinha 15 anos e deveria tornar-se mãe naquele dia ou no dia a seguir. Ouvimos o primeiro relato de uma vivência e uma primeira história reveladora de incertezas e medos quanto ao futuro daquela menina e do seu bebé, confidências sobre as suas experiências. Afinal era mesmo verdade! Poderia ser uma frase de introdução a este excerto. À memória afloravam os momentos que passara quando viu o resultado do teste, quando o namorado, depois de saber, a abandonara, e, como seria de esperar, quando teve de revelar a sua condição aos pais. Para ela, o futuro aparecia como algo difícil de imaginar. O facto de esta jovem não ter condições económicas para cuidar de uma criança é, naturalmente, um factor adicional de agravamento do se medo e insegurança.

A narrativa da “Carolina” mostra que é justamente nesta fase da trajectória de vida em que ainda não se é adulto – como aliás refere “Carolina” mas, também já não se é criança, que se procura um sentido/caminho para a vida através de aprendizagens que, se concretizam por tentativas e erros. Aos 13 anos, um primeiro amor acabaria por deixar “Carolina” a procurar lidar com a solidão e a tristeza. Esta jovem parecia não conseguir ultrapassar a memória do seu primeiro grande amor, com o qual criou fantasias, projectos e expectativas, apesar de a relação ter sido efémera. Quando teve relações pela primeira vez, namorava “há dois meses.” Esse amor era, sobretudo, imaginário feito de suspiros, de olhares, de esperas e de uma grande timidez. “Carolina” viveu uma dramática história de amor ainda muito nova, entregando-se com grande paixão ao seu namorado. Foi difícil para ela lidar com um problema emocional difícil de superar. Enfrentava o seu primeiro dilema. O segundo dilema encontrara-o quando, frágil e desprotegida, se entregou ao segundo namorado e daí resultou uma gravidez indesejada.

Sobressai que uma gravidez na adolescência implica uma entrada precoce no mundo dos adultos, projectando estas futuras mães para novas descobertas, novas responsabilidades, novos desafios, novos contextos de interacção e de actuação…

Porque é que é tão difícil ser adolescente e estar grávida? Para a grávida adolescente, a ocorrência de uma gravidez precoce constitui um desafio desenvolvimental muito exigente. Estas jovens enfrentam uma dupla crise desenvolvimental: a crise da adolescência e a crise da gravidez. Assim, gravidez e maternidade na adolescência encaminham-nos para uma contextualização peculiar porquanto se enquadram numa fase igualmente ela peculiar do desenvolvimento. Pode dizer-se que é a passagem da infância, período da vida caracterizado pela dependência de várias figuras de autoridade, através do crescer psicológico para adquirir a autonomia e a independência. É processo dinâmico, uma cascata de acontecimentos que culminam com maturidade biológica, psicológica e social dos indivíduos. Este caminhar envolve uma procura de identidade, num corpo diferente a cada dia.

Actualmente sabe-se que as consequências da maternidade em adolescentes têm efeitos negativos: especialmente até aos 16 anos de idade, apresenta riscos físicos, psíquicos e sociais, por vezes graves. As mães adolescentes têm maior probabilidade de dar à luz prematuramente, correndo estes bebés um elevado risco de problemas de saúde, como baixo peso, sendo conjuntamente a morbilidade materna e fetal tanto maior quanto menor for a idade da grávida. A probabilidade das mães adolescentes morrerem devido a dificuldades durante a gravidez similarmente duplica. As causas podem estar relacionadas: com a necessidade de um parto prematuro, anemia ou tensão arterial elevada. Quanto aos riscos obstétricos trabalhos nesta área descrevem uma Síndrome que resultaria da gravidez num organismo ainda pouco ou insuficientemente crescido e prematuro e os efeitos nutricionais, biológicos, imunológicos e mecânicos daí consequentes. Uma gravidez numa adolescente poderá trazer complicações como, por exemplo, o aumento da incidência de recém-nascidos pré-termo e de recém-nascidos pequenos para a idade de gestação, de asfixia intra-partum e de possíveis traumatismos obstétricos, de anomalias no sistema nervoso central, de síndrome de dificuldade respiratória, de hipoglicemia, de convulsões e de enterocolite necrosante.

Os factores que correlacionam baixa idade com mau prognóstico continuam ocultos, mas admite-se que os problemas essenciais destas jovens adolescentes sejam sociais, económicos e psicológicos. Segundo J. de Almeida [1] a Americam Academy of Pediatrics depreendeu bem isto ao afirmar, pela sua Comissão para a Adolescência, que os efeitos nefastos em gravidezes precoces parecem depender mais do nível social e económico do que da adolescência em si. Segundo a Academy podemos apontar que os segundos filhos de mães adolescentes são frequentemente mais pequenos e apresentam maior taxa de mortalidade neonatal.

Focamos que a gravidez na adolescência é considerada de alto risco, devido às repercussões sobre a saúde da mãe – cujo corpo não está adequadamente preparado para a maternidade – e do bebé – que irá sofrer a imaturidade, quer física, quer psíquica da mãe.

Contam-nos histórias de amor, urgentes e inevitáveis, pungentes, nas quais se lê solidão, isolamento e faltas nem sempre redimidas que, no entanto, podem ser resgatadas pelo poder indiscutível da ternura e dos afectos.

Nota

[1] Almeida, J. (2003), Adolescência e maternidade, Lisboa, Fundação Calouste.

 

 

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