Poupança e consumo em Portugal: desafios ao equilíbrio

Dimensão analítica: Condições e estilos de vida

Título do artigo: Poupança e consumo em Portugal: desafios ao equilíbrio

Autora: Raquel Barbosa Ribeiro

Filiação institucional: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa

E-mail: rribeiro@iscsp.utl.pt

Palavras-chave: Poupança, consumo

Tema na ordem do dia por força da conjuntura, a poupança tem sido relativamente pouco trabalhada pelas Ciências Sociais e continua a ser um domínio de interesse maioritariamente económico. Comparativamente, tem sido dedicada maior atenção, tanto académica como mediática, ao consumo – o parente mais exuberante da afectação individual do rendimento e também o contrapeso directo da poupança. Contudo, para a compreensão do nível, da regularidade e do sucesso da poupança, contribuem diversos factores de ordem psicossocial (e não apenas económica): o hábito, as motivações, o optimismo, o autocontrolo, a envolvente cultural, a rede social, a família, os amigos, a escola e os media. Há um forte lastro emocional e social mesmo nas decisões teleologicamente mais racionais, que merece um olhar atento e que pode fazer vislumbrar oportunidades de actuação para os agentes sociais implicados na gestão da poupança.

Até muito recentemente, a taxa de poupança das famílias tinha decrescido desde meados da década de 80. No seu relatório anual de 2007 [1], o Banco de Portugal divulgava que a taxa de endividamento das famílias era de 129% e que a taxa de poupança das famílias portuguesas se encontrava nos 7,2% do rendimento disponível, o valor mais baixo dos últimos treze anos. Os dados de um estudo da TESE [2] mostram uma reduzida capacidade de poupança em Portugal: mais de metade dos inquiridos (59%) afirma que nada lhe sobra por mês depois de pagas as despesas fixas Os extremos da escala etária são os mais penalizados.

Encontramos gerações juvenis a viver num contexto de insegurança laboral e financeira, mas aparentemente pouco preparadas para lhe fazer face. A dependência da família de origem tenderá a prolongar-se por mais anos, acompanhando não só o aumento da duração da escolaridade obrigatória como também o das novas licenciaturas-mestrados de Bolonha. O envelhecimento da população mostra-se irreversível e a sustentabilidade da segurança social enfrenta desafios sérios que fazem urgir a necessidade de repensá-la. Aprender a poupar, regular e cabalmente, para garantir o futuro, quer dos adultos a caminho da reforma, quer dos jovens em estrita e duradoura dependência dos seus progenitores, afigura-se inevitável no presente e no futuro. Contudo, o hábito de poupar tem vindo a resultar erodido da combinação entre uma socialização mais permissiva, uma estrutura social mais lassa, o aumento das solicitações e facilitações de consumo, do lado da oferta, e do hedonismo, do individualismo e da orientação para o curto prazo, do lado da procura (apoiados na subida dos rendimentos), juntamente com alguma desmoralização da juventude para assumir o planeamento da trajectória da sua própria vida.

Que valores contemporâneos, herdados ou em germinação, modelam as decisões financeiras individuais? Que sentimentos acompanham o planeamento e a gestão financeira? Qual é o contributo dos pais, da escola, dos amigos, dos media e dos agentes económicos para a formação do pensamento aforrador? E, como corolário, poupar para quê?

A investigação sociológica mostra que, por um lado, a poupança ainda está muito associada a dificuldade, privação, doença, velhice, classe baixa – é a poupança do “jogar à defesa” [3]. Se o conseguir poupar inspira sentimentos de (auto)controlo e orgulho, o seu suporte moral está fragilizado e ainda parece longe de prometer felicidade. Poupa-se ainda muito por medo e pouco por sonho. A poupança é vivida “em casulo”, em isolamento, em “autocracia” (a maioria diz confiar inteiramente em si para encontrar as melhores formas de poupar) – mas com pouca satisfação e literacia daí decorrentes: há muitos ignorantes sobre o montante da sua poupança, acompanha-se pouco a oferta, não se pede muito conselho a familiares e amigos e a frustração é maior do que o sentimento de missão cumprida.

Mas também se vislumbra o aparecimento de um novo modo de encarar a poupança, como trampolim de aspirações, que pode ganhar o seu terreno especialmente junto dos mais novos, das mulheres e mesmo dos estratos sociais ainda pouco despertos para este hábito (mas que representam uma grande parte da população). A poupança como idealização de refúgio de estabilidade no fim da vida, ou como plano de contingência para dias cinzentos (demasiado remota, passiva e negativa para a impaciência e o epicurismo dos tempos que correm), começa a ser substituída por outra mais ambiciosa, instrumental, polietápica e plurimotivacional, que se adapta ao longo da vida aos desejos e objectivos do momento, que visa proporcionar usufruto e hedonismo “em idade útil”, com tanta legitimidade como a que tipicamente tem sido concretizada por disciplina ou segurança, que deverá estar apta a renegociar o conceito de “longo prazo” e de “adiamento”.

Será sem dúvida útil e oportuno que todos possamos aprender alguma coisa com a crise, com o endividamento, com o “vazio” e com outros alegados malefícios do consumo, seja na economia, na sociedade ou nos valores. Para que a poupança venha a ser um hábito fluido, desejado e consolidado, capaz de coabitar em equilíbrio e complementaridade com o consumo, será necessária uma estratégia vertebrada, consequente e duradoura, assente na educação e participada pelos agentes económicos e financeiros.

Notas

[1] Banco de Portugal (2007), Relatório e Contas. Gerência de 2007, Disponível em URL [Consult. 17 Fev 2011]: < http://www.bportugal.pt/>.

[2] TESE – Associação para o Desenvolvimento (2009), Necessidades em Portugal – tradição e tendências emergentes, Junho, Lisboa: ISCTE.

[3] Ribeiro, Raquel (2009), Gestão de sonhos: a poupança numa perspectiva psicossociológica (no prelo).

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