Algumas consequências sociais do urban sprawl

Dimensão analítica: Ambiente, Espaço e Território

Título do artigo: Algumas consequências sociais do urban sprawl

Autor: José Pedro Silva

Filiação institucional: Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

E-mail: jose.silva@ics.ul.pt

Palavras-chave: urban sprawl, urbanização, laços sociais

Apesar da imagem tradicional da cidade cerrada e espacialmente delimitada, os territórios urbanos estão a espalhar-se de uma forma difusa e desordenada, estendendo-se irregularmente pelos espaços rurais e não edificados. O conceito de urban sprawl (sem tradução directa para o português), introduzido nos Estados Unidos, tenta precisamente captar este fenómeno, que se faz sentir também do lado de cá do Atlântico. As cidades europeias são mais compactas, mas o urban sprawl tem crescido desde os anos 50 do século XX, e deverá continuar a aumentar. Na Europa, este fenómeno verifica-se sobretudo em zonas que já se encontram fortemente industrializadas e urbanizadas, em regiões que conheceram um crescimento económico rápido, e nas áreas costeiras [1].

Neste contexto, Portugal é identificado como um dos países onde o urban sprawl é particularmente visível. No quadro nacional, ele surge numa vasta extensão da costa ocidental, entre a região de Viana do Castelo, no Minho, até à península de Setúbal – sendo particularmente observável nos territórios mais próximos das duas principais cidades do país, Lisboa e Porto – e o Algarve [1]. As duas grandes áreas metropolitanas do país e as suas envolventes remetem sugestivamente para essa imagem de um território urbano que se expande irregularmente, espalhando desordenadamente as suas zonas residenciais, os seus centros comerciais e hipermercados, os seus parques tecnológicos e industriais e as suas estradas e auto-estradas por áreas anteriormente rurais.

O urban sprawl, em Portugal, está associado ao bem conhecido fenómeno de “litoralização”, agravado desde a década de 1960: aos movimentos migratórios do interior para o litoral, sobretudo na direcção de Porto e Lisboa, associou-se um processo de urbanização repentino da costa e de expansão do tecido urbano em torno daquelas cidades. Assim, em apenas 13% do território do país, concentra-se 50% da área urbana nacional [1]. Pode-se mesmo considerar que a região de Braga se encontra ligada à península de Setúbal através de uma vasta e heterogénea “conurbação urbana” [2]. Por outro lado, também é sabido que a acelerada urbanização do litoral a que se assistiu em Portugal a partir da segunda metade do século XX se verificou num quadro de ineficácia dos instrumentos de planeamento e ordenamento do território, tendo sido antes regulada por interesses económicos e privados; ora, a ausência de planeamento é considerada um factor que facilita o urban sprawl. No caso específico do litoral algarvio, a expansão urbana não estará, naturalmente, dissociada da procura turística. Relativamente aos casos de Porto e Lisboa, é preciso não esquecer que, ao longo dos últimos anos, estas cidades têm perdido população para zonas mais periféricas. Os problemas sentidos nos centros das cidades – poluição, falta de espaço, percepção de insegurança, degradação dos edifícios, entre outros – não se dissociam do urban sprawl. No entanto, este é um fenómeno complexo, e estes factores articulam-se com muitos outros que têm estimulado o seu crescimento como, por exemplo, a elevada mobilidade individual associada ao automóvel e à expansão da rede viária.

O urban sprawl é, frequentemente, analisado a partir de uma perspectiva que o vê como um fenómeno nocivo que deve ser combatido. A Agência Europeia do Ambiente considera-o um dos principais desafios que a Europa terá de enfrentar no futuro, gerador de múltiplos impactos ambientais, económicos e sociais profundamente negativos. Entre os problemas sociais relacionados com este fenómeno encontra-se a segregação social [3][4][5][6]. As camadas da população munidas com um maior poder económico e uma maior mobilidade podem optar por viver em locais mais valorizados, enquanto que outros grupos vêm as suas opções mais limitadas. Para além disso, o urban sprawl é frequentemente apontado como um fenómeno que provoca um maior isolamento dos indivíduos (idem). Pensado sobretudo em função do automóvel, o espaço público da cidade espalhada deixa de proporcionar o encontro e a interacção com os outros; por outro lado, a separação cada vez maior entre o local de residência e o local de trabalho também é vista como uma factor que contribui para o isolamento, aumentando o volume de tempo gasto em deslocações de automóvel, geralmente solitárias. A partir desta perspectiva, a expansão difusa do tecido urbano contribui para o empobrecimento das interacções quotidianas, para a quebra da solidariedade e da confiança e para a erosão dos laços sociais que unem os indivíduos. A segregação social e a privatização do quotidiano identificadas em zonas de urban sprawl surgem, em alguma literatura, associadas a um enfraquecimento da participação social e política [5]. Esta não é, no entanto, uma leitura consensual, e a relação sugerida não se encontra comprovada no nosso país [6]. Porém, tendo em conta o carácter global do urban sprawl, mesmo sem aludir aos seus impactos ambientais e económicos e pensando apenas nas suas possíveis consequências sociais, facilmente se conclui que é fundamental conhecer melhor e debater mais este fenómeno.

Notas

[1] Agência Europeia do Ambiente (2006), Urban sprawl in Europe – the ignored challenge, Agência Europeia do Ambiente, Copenhaga.

[2] Ferreira, Vítor Matias; Castro, Alexandra (2007), O Território, In António Reis (coord.), Retrato de Portugal – Factos e Acontecimentos, Lisboa, Instituto Camões, Círculo de Leitores, Temas&Debates, pp. 80-100.

[3] Domingues, Álvaro (1999): “Formas e escalas da urbanização difusa – interpretação e intervenção no NO de Portugal”, Inforgeo, 14, pp. 43-64.

[4] Duany, Andres; Plather-Zyberk, Elizabeth; Speck Jeff (2000), Suburban Nation, New York, North Point Press.

[5] Putnam, Robert D. (2000), Bowling Alone, New York: Touchstone.

[6] Villaverde-Cabral, Manuel; Silva, Fernando Carreira; Saraiva, Tiago (orgs) (2008), Cidade e Cidadania, Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.

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Uma Resposta a Algumas consequências sociais do urban sprawl

  1. Susana diz:

    Caro José Pedro

    Quem conhece bem a “Aldeia” sabe como pode ser promíscua e destrutiva a interacção quotidiana. A cidade veio resolver, à custa de algum isolamento e empobrecimento das relações humanas, sim, a regulação social impregnada de dogmas (fundamentalmente impostos pela Igreja Católica) que se vive nos centros não urbanos. Em palavras simples, a cidade veio resolver um pouco o “parece mal” e dissolver os “crimes do Padre Amaro”. Em que medida é que este Urban Sprawl não tem, também, um impacto positivo na qualidade de vida de muitos indivíduos? Com custos, claro, mas para que lado penderá a balança?

    Gostei muito de ler o seu artigo.

    Cumps,
    Susana Soares

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